O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




quinta-feira, 11 de março de 2010

O empinador de céus / Palavras Vivas



Um verso tecido para registro do sol,
do sal, de como mais morte há no vivendo,
do rio só descendo, de tendo de ser sertão,
um João de pena na mão versa um vão,
tece um universo...

Basta só que uma palavra sua lance
sobre outra palavra a ponta densa do fio,
e essa que perceba o compasso avance,
que receba o passe da primeira alcance,
que esticada em verso saia em revoada,
que lançada possa tal palavra seja,
tão deixada à outra quão liberta esteja,
que repasse o fato itinerante à rede,
que palavras juntas sejam seus novelos,
e que novelos rolem de gerar sentidos,
indo a mais palavras para mais lugares,
se lançados sobre mais destinos possam,
de um tempo ao outro repassar o verbo,
que sentindo lancem ao seguinte a chave,
que destravem a porta para sol adiante,
e que mais palavras desnoveladas sejam,
velejando em versos para cais distantes,
que se façam mundos sobre tais novelos,
e as palavras livres saibam ser milhares,
que armada a tenda caibam mais palavras,
e que todas elas sendo tão modelos,
que carpindo cores, que empinando chaves,
que um sol João sozinho faz um verso,
e as palavras juntas de tecer um mundo,
de bater as asas sob o tom de sua pena,
e que vezes tudo vezes céu silêncio,
vezes só poema, todo universo.

Ricardo Fabião


Para João Cabral de Melo Neto, em algum lugar... autor de "Tecendo a manhã", poesia com a qual dialoga "O empinador de céus"
Na foto: João Cabral de Melo Neto 

 ____________________________________________
 
Palavras Vivas


Fio a fio
Ponto a ponto
Com a paciência de uma tecelã
Letra a letra
Palavra a palavra
Desenham-se em versos no papel
Nas mãos do poeta que os tece
Que essa palavra crie vida
E, de boca em boca, se espalhe
E o Universo inteiro possa abraçá-la
E numa união de pensamentos e emoções
Tornem-se uma única voz
Que eu uníssono ilumine o mundo
Revelando os mistérios  do viver
Aproximando os povos, as raças, os credos
Destruindo preconceitos e pré-conceitos
Derrubando  valores arcaicos e sem sentido
Unindo forças para construir
Um novo mundo em versos
Todos juntos em harmonia
Com a paciência de uma tecelã
Com a alma entregue à certeza
De que o Universo se transformará
E num belo tapete mágico
Voaremos todos em busca de nossos sonhos
E, juntos, construiremos o mais belo porvir.


Ianê Mello

Diálogo Poético - Colaboradores: Ricardo Fabião, Ianê Mello

 

10 comentários:

Joe_Brazuca disse...

amo esse cara...

muito boa homenagem, Fabião !


abs

Angélica Lins disse...

Espetáculo de postagem essa.
Parabéns!

Tenha um dia feliz =)

Ianê Mello disse...

Ricardo,

obrigada por nos presentear com tão lindo poema.
Belíssima homenagem.
Cada vez mais alegro-me em tê-lo conosco.

Beijos.

Ricardo Fabião disse...

Obrigado, Ianê...
eu é que fico cada vez mais grato por participar deste universo, bem como por poder aprender mais com tão talentosos poetas.

Aqui eu só cresço.

Beijos.
Ricardo.

Ianê Mello disse...

Ricardo,

Você é um poeta maravilhoso, com certeza.

Aqui, todos nós crescemos.

Diante de tão belo poema,tentei , humildimente, fazer um diálogo.

Espero que goste.

Beijos.

Ricardo Fabião disse...

Ianê, em "O empinador de céus", as palavras tinham ido a muitos lugares, mas sua complementação me fez enxergá-las sobre um tapete voador, distribuindo, como você disse, vida por onde passa.
Peguei 'carona' no seu sentido...
Belo poema!

Como a gente 'voa' dialogando versos!

Beijos.
Ricardo.

Ricardo Fabião disse...

Ianê...
Quase esqueci: o título do teu poema (acima) está diferente do que foi postado abaixo.
Confira.

Beijos.

Ianê Mello disse...

Ricardo,

Que bom que pude , de alguma forma , complementar o seu poema já tão completo e lindo.

Voa e voa alto, amigo, nas asas da poesia!

Obrigada.

Marcelino disse...

Um dos mais criativos e inteligentes poemas que já tive o prazer de ler nestes Diálogos; apesar de lembrar explicitamente o texto do pernambucano João Cabral, dele se desgarra e ganha autonomia poética e beleza própria.

Ricardo Fabião disse...

Agradeço por seu comentário, Marcelino.

Quanto à semelhança, foi proposital...

O poema de João Cabral diz que um galo sozinho não tece uma manhã. Eu respondo diretamente ao poema, por isso a explícita aproximação com o mesmo, afirmando que um João "sozinho" consegue tecer um universo. Achei interessante manter os mesmos 'fios' da tessitura original, como se eu fizesse parte do mesmo instante poético: um diálogo de fato.

Abraço.
Ricardo.

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