O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




domingo, 31 de janeiro de 2010

Por que escreve o poeta?


Em um mundo fragmentado, conturbado e contraditório como o que vivemos, por entre escarpas, espinhos, espadas agudas e apontadas, sustos, medos, gritos, soluços, sobrevive o poeta. E, conturbado pelo seu tempo, perplexo diante da vida, encontra , no fundo da alma, uma espécie de lâmpada mágica que lhe ilumina o túnel, clareia-lhe o caminho, espantando as trevas angustiantes que são, para si, a vida sem a sua poesia. Porque é essa a grande razão de escrever: fazer explodir a inquietação que lhe vai na alma, tornar público esse monólogo interior que, como um mosquitinho, fica a lhe "cutucar", instigar, querendo colocar o ser em movimento. E ele, o poeta, entre o assombro e a surpresa, vê esvair-se sobre o papel, em meio a contas, obrigações, o sensível do seu ser.
Gotas imensas de sensibilidade e imaginação vão transformando-se em riachos, rios, cachoeiras de imagens, símbolos que acabam por relatar o seu interior. E aquilo que não se diz, é agora dito por entre letras, formando metáforas, metonímias e uma série de figuras que terminam por representar-lhe a alma. Para o poeta, uma árvore não é tão somente uma árvore. É muito mais. É tudo aquilo que, aos seus olhos atentos, representa uma árvore ou é por ela representado. E essa representação, implícita ou expliícita, vai, passo a passo, caracterizando o ser poeta.
Alma impregnada de canções contidas que teimam em com ele cantar, inquietação que se desemboca em melodias que com ele querem rimar.
E, no espelho dessa alma de poeta, a poesia se faz luz. Reflete por entre a moldura, espalha raios intensos e se perpetua nas linhas escritas.
Aí, então, a alma sossega? Que nada! Insatisfação eterna. Cotinua querendo falar. E, deslizando sobre ondas flutuantes, por entre rios e cascatas da imaginação, retoma o verbo, constitui a palavra, transborda.
E, como nos diz o grande Otávio Paz, "consagra o instante".

Lice Soares



A diferença entre um poeta e um louco é que o
poeta sabe que é louco...
Porque a poesia é uma loucura lúcida.


Mario Quintana


Profundas nossas palavras
que gotejam emoção
como se fossem lavas
de um vulcão em erupção
Viscerais e pungentes
arrancadas de nossa alma
Sentimentos tão urgentes
que necessitam de expressão
e não ponderam a calma
O papel é o veículo
para nossa exortação
O instrumento precípuo
à nossa liberação
Súplicas podem ser
e urgem serem ouvidas
a quem as quiser ler
para que sejam sentidas
Gritam eloquentemente
saltando aos olhos de quem lê
Não há de ser mansamente
que expressaremos o sofrer
Seremos por isso dementes
estando sempre a mercê
de críticas incoerentes?


Nos sabemos loucos
como bem disse Quintana
Nos importarmos pra quê?
Se nossa mente é insana,
a lucidez ... é pra poucos

Ianê Mello
.



..
Que brisa é esta que me toca
como seda pura em corpo duro?
Que luz é esta que me invoca
como toque divino no impuro?
Que incerteza é esta que me invade
que torna o seguro em inseguro?

Será apenas uma vaga ilusão
tudo o que sinto oiço ou vejo?
E o que me faz bater o coração,
será apenas e só imaginação?
E será loucura este desejo
de transformar em arte uma paixão?

Mas é assim que eu sou!
Não sei se fruto, talvez semente,
(em solo estéril me confundo)
sentindo o que mais ninguém sente,
às vezes vulgar, outras imprudente…
mas não é assim o nosso mundo?
.
.
Albino Santos


.
Diálogo Poético - Colaboradores: Lice Soares, Ianê Mello, Albino Santos

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Perdão



O coração sente a mágoa
e a mente registra na memória
Quando machucado está
esse coração que sangra e chora
como poder perdoar?

A capacidade do perdão
está na medida exata
em que se pode amar
pois perdoar é um ato de amor

Então, seja lá como for,
trabalhe por dentro sua dor
e pense que é humano errar
e não resolve guardar
mágoas e rancores

Melhor é viver de amores
e o resto buscar superar
Dentro de nós encontramos
o poder que nós buscamos
quando podemos amar
e o perdão praticar.

Ianê Mello
.
.
"Quem irá ceder?"

Quis te perdoar
mas antes que eu pudesse
você me deixou
nesta linha sem horizonte.
.
Fui à sua busca
mas daí veio a dúvida:
o que eu deveria te dizer
ao te pedir desculpas?
.
Sem saber se deveria eu
desculpar-lhe ou redimir-me
fui logo à viagem
para dentro de mim mesma
.
se te encontrei, se me encontrei
não lembro, não sei
mas que perdão seria maior
do que aquele a meu próprio ser?
.
Lara Amaral



Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello, Lara Amaral

O Homem Bom

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Religião x Espiritualidade - " Desafio Poético "


"A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a Teologia. Abrangendo os terrenos material e espiritual, essa religião será baseada num certo sentido religioso procedente da experiência de todas as Coisas, naturais e espirituais, como uma unidade expressiva ou como a expressão da Unidade."

A. Einstein












Salvador Dali " A Santa Ceia "

Vamos dialogar sobre esse pensamento de Einstein? ....
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Porque nos prendermos à dogmas,
à preceitos religiosos,
à conceitos fechados e restritivos
que pregam sua verdade como única
manobrando mentes mais receptivas
a favor da religião e de seus representantes?

Por que crer num Deus que pune,
que nos vigia a cada momento
que vê quando damos um passo em falso
para nos punir e condenar?

Por que nos sentirmos pecadores
e deixar que outros nos digam o que é certo,
o que podemos ou não fazer de nossa vida ?
E quem é esse outro, senão um ser tão humano
quanto nós, para imbuir-se de tamanho poder
e intitular-se representante divino?

O que importa não é ter uma religião 
É termos amor em nosso coração
É fazermos o bem por livre e espontânea vontade
e não por medo de sermos punidos
O sentimento de bondade está acima de qualquer dogma religioso
e o amor ao nosso próximo está dentro de nós.


Ianê Mello




Desafio Poético - Colaboradores: Ianê Mello

Visão

Desta vez, resolvi fazer um pouco diferente. Sou designer gráfico e pensei que pudesse colaborar de forma não usual ao blog.

Abaixo, segue uma das manipulações de imagens presentes em meu portfólio, para que vocês criem a partir dela qualquer tipo de literatura (poesia, crônica, conto, microconto etc). Eu a intitulo Visão.


Que visão será essa que assombra?
Certamente não é a visão do paraíso
ou o que dele se imagina
É a visão sombria da morte
que se anuncia em cada rua escura,
em cada beco ou ruela escondida
Sempre à espreita, a espera
Em prédios abandonados,
em cidades fantasmas

A morte chega de mansinho
como um afago disfarçada
e nos pega de surpresa
assim desavisados
E que poder temos contra ela?

Como um espectro assustador
em seus braços nos acolhe
como se nos confortar fosse
E o corpo se torna inerte
frio e insensível
Os olhos embaçados
já não podem ver
A boca seca e emudecida
já não respira vida
nem pronuncia palavras de perdão

Envolvidos pelo seu frio manto
seguimos rumo ao desconhecido
Ao mundo subterrâneo e escuro
de onde não veremos mais a luz do sol


Ianê Mello


Escuridão...
A humanidade inquieta corre,
O povo corre,
A cidade assombrada corre,
Por entre a escuridão da noite,
Sob trevas, corre.
O dia que não surge... foge
Por entre ruas e avenidas corre,
Há gritos a correr, em bocas assustadas
e corpos aflitos
que, por entre esqueletos, correm.
E a luz? Corre!
Exército da Paz, vinde rápido! Vinde vós!
E expulsai as sombras a construir a morte.
Levantai, ó Luz, por entre os ossos estáticos
E correi, apagando a escuridão, reconstituindo a alegria
de todos aqueles que... correm.


Lice Soares

Diálogo Poético - Colaboradores: Felipe Carriço( ilustração), Ianê Mello, Lice Soares 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Virtual









Diálogo poético - Colaboradores: Machado de Carlos

Cansei-me


Vou cantar meus sonhos,
Sonhar os meus cantos,
Gritar silêncios,
Silenciar vozes em gritos, alaridos.
.
Por favor, ninguém me perturbe,
Que ninguém me julgue.
Estou farta de traços retos,
tortuando verdades
.
Estou cansada de verdades
cheias de injustiça,
bondades gerando lágrimas,
Assaltos em plena tarde,
violência sufocando manhãs.
.
Cansei-me.
Reverterei as nuvens pousadas
Sobre mim.
.
E voarei para uma ilha
chamada Paz.
"Vou-me embora para Passárgada"
Eis o que me diz o poeta.
Segui-lo-ei.
Acompanha-me?

Lice Soares


Acompanho-te minha amiga
pois tens razão de assim estar
A vida por aqui é muita briga
Bem difícil de aguentar


Ando cansada de igual maneira
e em certas vezes me desespero
Tenho sentido muita canseira
e me livrar de tudo isso é o que espero

Mas fugir não resolve
Ir pra Passárgada será o melhor?
Pois a vida de quem foge
torna a tristeza maior

Não façamos traços retos
Linhas curvas, então, tracemos
Façamos planos concretos
com os sonhos que nós temos


E assim busquemos a Paz
não no que está fora
mas no que dentro se esconde
e em nossa alma mora

É esta a minha proposta
ficar e não ir embora
Tentar encontrar a resposta
no despertar da aurora

Ianê Mello
.
Cansada retomo a minha força,
Na força deste teu cantar.
Convence-me, pois, amiga minha
A ficar e lutar.
.
Buscar os sonhos que perdi,
Orquestrar com colibris,
O canto que canta a Paz.
.
Sonhos tive de fugir,
Desejos tive de ficar,
Agora, porém, tu me vens
Lembrando que é na luta
que a força está.
.
Bela e sábia companheira,
Lembra-me, assim, de outros mares
E retorna já a minha alma,
pela esperança a navegar.
.
Buscarei a aurora perdida,
Adiarei a minha ida,
Festejarei esperas por cá
E tentarei realizar aqui
os sonhos que quis levar pra lá
.
A ti agradeço os belos versos
Pousados em cantos de primavera,
A ti aplaudo, bato palmas
Pelas palavras sinceras.
E assim, estendo a minha mão
e te envio um beijo sincero
A pousar no teu coração.


Lice Soares




Diálogo Poético - Colaboradores: Lice Soares, Ianê Mello, Lice soares

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Não morras



Meu sonho, não morras!
Descruza os braços,
Dá-me um sorriso,
Estou aqui há tanto tempo,
Sob o poente, a te esperar.
.
Guarda-me o sorriso,
Só disso eu preciso.
Que desnudes o tempo,
Disperses essas sombras,
Libertes o perfume das rosas escondidas...
Não, não te vás!
.
Eu sou aquela que,
Sobre a montanha, te espera,
Que escalou tantos precipícios,
Enfrentou tantas tempestades,
Só para te encontrar.
.
Meu sonho, não morras!
Preciso sentir a tua fragância
E, feito rosas desgarradas,
Os teus braços a me abraçar.
.
Não morras meu sonho!
Meu tempo é tão curto...
Mas, ainda tenho tempo
Para te ver chegar.


Lice Soares


O meu sonho é furta-cor
Tem sabor de hortelã
E me vem toda manhã
Na doce palavra Amor

Doce sonho que me encanta
Me desperta para a vida
No belo rouxinol que canta
Em minha alma colorida

O sonho não pode morrer
Com ele brota a esperança
Quando vem o amanhecer
Desperta em mim a criança


Ianê Mello



Nas palavras em folhas douradas
As nuvens inocentes de quem

Sonha
De quem acredita
Que um sorriso é composto da mais nobre matéria
De quem caminha
Disposto a lançar em todos os lugares
Os alegres murmúrios das ondas

A quem se sentou
Esperando o último dia do Inverno

Espero
Também. O dia que nascerá
Após a madrugada
E enquanto busco
Durmo e sonho e acredito
Espero
Um livro palavras em folhas douradas
Um vento de cravos e begónias
Revoltas pelos teus sorrisos.
Sorrisos. Acredita
Que este é o lugar da palavra
Vendaval
De palavras e esperanças

De quem
Ainda acredita no dia mais claro
Rosa carmim de silêncio
E palavra.



Leonardo B.



Diálogo Poético - Colaboradores: Lice Soares, Ianê Mello, Leonardo B.

O Poeta e a Flor

Machado de Carlos




Como a flor da poesia
que a doce alma encanta
O amor que alumia
e em versos se decanta

Com a primavera, as flores
Com o perfume, os amores
Inundando de beleza
nossa alma benfazeja

E a flor tão cultivada
Conserva em si o perfume
Da mulher que de tão amada
Brilha no escuro o lume


Ianê Mello




Diálogo Poético - Colaboradores: Machado de Carlos, Ianê Mello

Alma Querida






Ainda te Amo...










Ainda te amo
Preciso confessar...
O tempo passou,
mas nada em mim mudou.


Vesti uma armadura
e fingi para mim mesma
que eu havia te esquecido
mas hoje desabei e tive que dizer
que ainda amo você...


As nossas noites ardentes,
as madrugadas envolventes
e o amanhecer contigo...
Ah! Meu amor!
Como te esquecer
se ainda está vivo em mim?...


Ainda te desejo, quero seu beijo
e seu corpo em mim...
Calo minha voz, mas meu
coração grita seu nome,
quanta saudade...
Saudade de ti!...


Maria Bonfá



O silêncio a preencher a sala vazia,
cheia de palavras presas na garganta.
A boca seca, emudecida pelo medo.
Sentimentos encarcerados dentro do peito.


Os olhos embaçados fitos no chão escuro.
As mãos sobre o colo tricotam imaginariamente o ar.
Por que calar as palavras tão sentidas?
Por que aprisionar os sentimentos?
Por que não olhar nos olhos do outro alguém?
Por que com as mãos não se tocar num abraço?


O amor permeia esses corpos
rígidos em sua própria dor,
tementes da entrega que cura.
Esse mesmo amor que um dia
enlaçou seus corpos como um só
fazendo-os sorrir de alegria e prazer.


Quando exatamente se perderam um do outro
e se acostumaram com o silêncio que se instala
entregando-se à essa inércia que devora?
Quando seus olhos deixaram de se olhar com ternura
e seus lábios não mais se tocaram?
Quando seus corpos tremeram de frio na cama vazia e sem amor?



Ianê Mello
.


Para te recordar, fui passear nas margens do “nosso” rio.
Porém, a paz que me trouxe a este lugar, já não a encontro. Como gosto deste sitio tão verde. Tão teu e meu!
Na água que corre apressada, vejo a tua imagem plena de luz. Também escuto as tuas palavras que sempre me seduziram e que agora voltam, reflectidas por um eco bem distante. Aqui, as flores ainda têm o mesmo cheiro silvestre. Os pássaros ainda cantam a melodia que te fazia adormecer no meu colo. Ainda sinto aquela cumplicidade, trocada entre um beijo e um abraço, um sorriso, um olhar, uma carícia…
Achei que, aqui, seria o local ideal para te esquecer. Como me enganei!
Ainda oiço o silêncio das coisas passadas, como quando tu perguntavas com um receio que nunca entendi:
- Que horas são meu amor?
.
Albino Santos


Diálogo Poético - Colaboradores: Maria Bonfá, Ianê Mello, Albino Santos

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pretérito Iluminado



Instantes...
sempre instantes,
Fugidios instantes
Talhados pela ação do vento
A entoar um até breve...
Nunca mais.
Instantes...
Breves instantes,
Conjunto de voos rasantes
A circundar
Limitado hemisfério.
Instantes turbinados
de pura partida
E o meu poema sentido,
sem marcas, ferido,
A despontar
Em cada instante da vida.

Lice Soares


Diálogo Poético - Colaboradores: Machado de Carlos, Lice Soares

Homens Taciturnos






Os homens e seus sobretudos
Seriedade expressa no semblante
Na cabeça, um chapéu já fora de uso
No olhar, uma expressão distante

Caem do céu como pássaros
mas asas não tem pra voar
Fechados em si mesmos
guardam os seus segredos

Como fossem gotas de chuva
a cair do denso céu
repleto em nuvens escuras
onde habitam seus pensamentos

Homens endurecidos pelo tempo
Amortecidos pela dor
Não podem perder um momento
para abrir-se ao Amor

São muitos e inalcansáveis,
das alturas eles vêem
Procuram manter-se estáveis
por ser o que lhes convêm

Ao caírem por sobre a terra
das nuvens de onde vem
Uma certeza se encerra
podem acabar ferindo alguém

Homens taciturnos, encimesmados
podem `a alguém desprevenido
causar uma forte apreensão
Do alto de sua altivez derrubados
são homens comuns, cismados
em causar boa impressão.



Ianê Mello

Indiferentes não percebem
os galhos que para si se inclinam
E passam introspectivos, despercebidos
Voltados apenas ao próprio coração.

Inclinando as suas mãos, arrancam
uma rosa
E, a despetalando,
Jogam-na no chão.

E prosseguem passo a passo,
Lentidão...
Esmagam cada pétala
Que eles mesmos jogaram no chão.

Indiferentes, não olham.
Se olhassem, veriam, as lágrimas que choram,
Ainda a pingarem, por entre as suas mãos.
E os seus pés avermelhados,
Deixando rastros, no chão.

Lice Soares



Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello, Lice Soares

Musa





Quem dera musa eu ser
de um poeta exemplar
e através dele me ver
em seus olhos me mirar

Ser decantada em prosa e verso
palavras de beleza e encantamento
onde todo o universo
cabe em um só momento

Musa-mulher que inspira
`a um poeta sensível
que só por ela suspira
nesse amor indivisível


Ianê Mello


Diálogo Poético - Colaboradores: Machado de Carlos / Ianê Mello

domingo, 24 de janeiro de 2010

Em teu rosto o sonho

               
                                   Emma Hack - Body Art



Em teu rosto o sonho
Olhos fechados em nuvens de algodão
Uma pipa a voar no céu
dá asas à imaginação
Em teu rosto sereno
céu e terra se fundem
e se confundem
em montes, verdes vales,
céus azuis de nuvens claras
Sonhar permite-se ao fitá-lo
pois que de sonho é feito
Nele todo o mundo refeito,
pintado em cores vibrantes
onde teu rosto é a tela
e dele se faz o encanto
aos olhos deslumbrados
A beleza que se manifesta
no espaço de uma face
e nela se eterniza
por um momento breve
no espaço livre do sonhar


Ianê Mello


Reciclado para "Fábrica de Letras"em 26.01.2010.
*****************************************************************************

.
Sonho que navego
num barco sonâmbulo.
Nas rotas do desejo
inundo-me do azul
em que me alagas.
Adivinho gemidos
pendurados nas estrelas.
Tomo entre os meus dedos
partículas do teu nome.
Invento a cor dos teus suspiros,
naufrago nos teus braços,
mergulho no reflexo das ondas
em busca da ilha perfumada,
do teu ventre de conchas e corais,
da gruta onde me esperas
com lábios de espuma
e de vertigem
na comunhão das horas
indecifráveis
que ainda nos cabem…


.



Albino Santos




Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello, Albino Santos


Uma carta ao tempo


Pintura de Salvador Dali " The persistence of memorie"


Caro tempo,

que estás sentado no alto de tua glória
perambulando séculos após séculos
terra a dentro, sem descanso
onde tuas mãos já calejadas
afagam este ser chamado eu
e a aspereza de teu toque
revela-me cada vez mais a calva
escondida em meio ao branco dos dias

nos encontramos apenas uma vez
onde me compraste teu escravo
servo de teus desejos rancorosos
e desde então em teu capacho durmo
recolhendo as migalhas que escapam
dos teus pés pequenos e atarantados
peço-te que por favor pare
e me dê um pouco de atenção


___________________


Bom, desta vez eu proponho o desafio.

Continuem esta carta com seus conceitos sobre o tempo.

____________

Quero te falar de tudo que não vivi
por tua pressa contínua em me arrastar pra longe
Em cada momento passado a ti ancorado
como escravo sem opção, sem escolha
Teria te pedido em alguns momentos
que parasses de passar
e me deixasse ficar nesse contentamento
No entanto, noutros te pediria
que voasses à outro dia
me tirando a aflição da espera
Tempo...tempo...tempo...
Quem me dera
Ter tido mais tempo do que tivera
quando contemplava as estrelas,
a calmaria do mar,
os bosques em flor
Te pediria, que sem pressa
me entregasses ao amor
e me deixasses ficar
nos braços do amado
E passas sem piedade,
sem se importar
Tempo, por favor, te peço,
me dê mais tempo para amar
Para correr atrás do tempo perdido,
gasto inultimente, seu juízo
Tempo para recuperar as perdas
Tempo para me reencontrar
Tempo...tempo...tempo...
liberte-me do meu penar.


Ianê Mello



Sim, precisas escutar-me.
Há no meu desejo,
que tu indiferente açoitas,
desconhece e ignora,
o querer ser e estar.
E em tua direção caminha
tudo aquilo que traço,
à espera do teu chegar.
.
Mas, pois, no meu tempo de
espera por ti,
Não estou eu a ti mesmo
a esperar?
Não estou eu, sempre, a te
rogar?
Escuta-me, portanto, e vem.
.
Contudo... vem
com mãos dispostas a afagar.
A plantar rosas, não somente
os espinhos.
A cantar canções, não semear
solidão.
Vem, afetuosamente vem
dá-me chance de sorrir e cantar!
.
Espera-te as minhas mãos a acenar,
Busca-te os meus olhos cansados de chorar.
Em ti está a minha esperança de alcançar
além de ti, o meu sonhar.
Refrigera-me, pois,,
ameniza o meu caminhar.

 
Lice Soares



Diálogo Poético - Colaboradores: Felipe Carriço, Ianê Mello, Lice Soares

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