O excesso de luz cega a vista.
O excesso de som ensurdece o ouvido.
Condimentos em demais estragam o gosto.
O ímpeto das paixões perturba o coração.
A cobiça do impossível destrói a ética.
Por isso, o sábio em sua alma
Determina a medida de cada coisa.
Todas as coisas visíveis lhe são apenas
Setas que apontam para o Invisível.
(Tao-Te King, Lao-Tsé)
sábado, 20 de março de 2010
Estações
Imagem: Mateus Luciano
As folhas da minha paixão se foram
caindo, caindo e caindo
as pétalas que eram rosas
murcharam
eu eternamente nóxio
núbil de novecentos
enterrado até os joelhos
pútrido dontem
desenvolto em luxúria
admiro-te paisagem inócua
sem sorriso e sem dó
a noite vem chegando
a estação acabando.
Mateus Luciano
Adubo-me para o próximo solstício
observas-me ao longe,
como o sol que não esquenta
e só meio-aquece o peito
a terra revolve e me junta
deixo sementes, anseio meus frutos
continuando a minha eternidade
que pode levar amor polinizado
ou só deixar saudade
mas que espera suas mãos
colhendo-me gentilmente
como quem quer saborear cada sumo
da próxima estação.
Lara Amaral
"Diálogo Poético" - Colaboradores: Mateus Luciano/ Lara Amaral
quinta-feira, 18 de março de 2010
Revelação Poética / Embriaguez
Gostaria de propor esse desafio.
O que você vê nessa imagem?
O que a(o) faz sentir?
Minha impressão e sensações aí estão, nesse poema.
Dê sua contribuição.Pintura: Sr. do Vale " A Pérola da Poesia "
O quanto a mente pode imaginar
diante de visão tão surreal
Quantos caminhos a percorrer
no vale da criação
Em suas cores tão vivas
Nas imagens que se sobrepõem
compondo uma estória inimaginável
Esta a beleza da poesia
descobrir a pérola na ostra
e trazê-la à luz dos nossos olhos
Criar a partir de algo abstrato
um significado para quem o lê
A mulher que alça voo
lançando-se na escuridão
Um casal a queimar de paixão
no enlace de seus corpos
A sombra e a luz,
os contrários expostos
O Yin e o Yang,
masculino e feminino,
complementando-se num mesmo universo
O TAO em sua manifestação
Universo em expansão
Numa explosão de matizes
Numa mistura de sensações
A morte e a vida
numa só pulsação
Ianê Mello
Embriaguez
o céu, som do pincel...
depois de armado o veludo
em tendas de vermelho aberto,
depois de pintar amor em amarelo,
não há coisa que permaneça em si...
luzem pretos de cortes horizontais,
morrem brancos sob tons de cinza;
e isso é como giram os amantes;
uma canção ao fundo ecoa;
depois é como avançam
suas mãos e bocas,
até jorrarem
líquidos,
gritos,
egos,
ais.
...Ricardo Fabião
Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello, Ricardo Fabião
Minha querida companheira
beijos minha querida companheira
de noites inteiras
por várias vezes tu foste
a única pessoa que via
sem nunca ver
naquelas tantas noites em que
eu era possuído
minha querida companheira
te desejo flores
talvez mais lindas
que estas
mas aqui
na terra só encontrei estas
e por não ser santo
só posso te dar estas
estranha força
eu estive tão perto de estar lá
longe talvez na beira do rio Tamisa
ou mesmo ali perto do Haiti
teria o mundo inteiro
teria até diamantes
mas
hoje percebo
que meu maior tesouro já tenho
minha querida companheira
seus sonhos
hoje fazem parte
do que "soul"
Aproveitando a oportunidade gostaria de agradecer pelo convite de participar nesse incrível blog ...
Diálogo Poético - Colaboradores: Mateus Luciano
Prefácio
Ah, se fosse somente a morfologia dos sentimentos...
Amar, simplesmente amar, como seria?
Ah, se então se revelassem os segredos da felicidade,
Que se daria?
Antes, há que incorporar-se à sintaxe do dia-a-dia,
E tentar sobreviver às sutilezas dos complementos,
E apurar os predicados e selecionar bons adjuntos.
Há por bem que se traduza a semântica dos olhares,
A pragmática dos sorrisos, como eles se abrem;
Convém que se classifique um aperto de mão,
As intenções dos sujeitos,
As entonações dos predicativos,
Os porquês dos superlativos,
A transitividade dos que se aproximam...
Viver é evento de mil conjugações.
É ato irregular, intransitivo, indefinido,
É substantivo de qualquer classificação;
Não tem gênero, e seu número é o mundo inteiro.
Viver é gramática que dispensa professores,
Todavia, exige amores, dores, suores;
Espalha-se em desinências múltiplas e formas livres,
Avança para além dos objetos, das pessoas, dos modos, dos tempos.
Sendo assim, conjugação simples,
Viver não é mais difícil que falar,
E cai bem como advérbios, para início, meio, fim e depois;
E tem caminhos e facetas como pronomes;
Está no contexto, fora dele, tentando fazer parte.
É termo simples, sendo indeterminado e palpável.
É comum de dois ou de todo mundo só;
É vocativo, clamando por espaço;
É aposto, reforçando o inexplicável;
É período simples e composto.
Está por trás das linhas,
Deslizando entre as vírgulas,
Anterior ao discurso,
Após o ponto final.
Na re-escritura.
Ricardo Fabião
Diálogo Poético - colaboradores: Ricardo Fabião
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