O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




Mostrando postagens com marcador Afluente - Ricardo Fabião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Afluente - Ricardo Fabião. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de março de 2010

À Fernando Pessoa / Afluente

 




O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa



Na  mente explodem versos
que não saem no papel
Sentimentos tão adversos
difíceis de esconder sob o véu

E nessa luta constante
Entre mente e verbo
De repente, num instante
Surge o poema inconstante

E tem que haver rapidez
para registrá-lo de imediato
Pois seria uma estupidez
perder esta inspiração de fato

E o poeta assim segue
Às vezes a escrever o sentir
Noutras a mentira o persegue
E não há como fugir

Já dizia o grande Pessoa
que o poeta é um fingidor
Pois não é sempre que escoa 
a palavra que expressa a dor

O poeta escreve seus versos
e nem sempre neles se espelha
Por motivos controversos
à eles, por vezes, se assemelha 


Ianê Mello
_______________________________


Afluente







  Ah, poeta...
“dá-me sonhos teus para eu brincar”. *
E que não seja mais eu a dizer minhas mãos;
Vem agora tu escrever minha vida,
Regar as minhas mudas de equilíbrio,
Os meus projetos de norte e sul e toda parte,
Para que não haja lacunas entre ser e expressar...

Eu digo certo as coisas dos homens,
E somo de cor as contas quadradas da álgebra,
Mas não domino o plano disforme de contar poesia.
De arrumar palavras sabendo onde cada uma cabe,
De ajeitá-las de modo que possam dar abrigo ao olho,
E que mais longe alcancem seus destinos de dizer.

Ah, vem morar na minha aldeia, acende-me o azul dos dias.
Que tudo meu é cansado de cinza e de ocaso.
Conta-me como se descreve um doer em verso,
Pois nem sempre juntando dor e pena dá poema.
Explica-me como são as alegrias das palavras rimadas,
Ensina-me como ir em curvas por dentro do sentimento,
E ao mesmo tempo ter a mais reta visão de isento.

Ah, permite-me um instante de tua plenitude,
Deixa-me enxergar o viés da alma, o frenesi dos sentidos.
Não quero ser apenas de viver e morrer como faço...
Preciso de tuas escadas para enxergar a altura do mundo,
E tudo que puder ver será meu também e eu serei tudo,
E assim de frente para o seu tamanho inteiro de poeta,
Será como estar diante do espelho, uma fusão de passos.

Só depois disso assim, de ir tão longe como tu escreves,
De ser infinitamente poesia como tu és,
Desça eu as escadas e encontre já um outro de mim,
Com alma suficiente para um mundo inteiro.  


Ricardo Fabião

(*) O verso entre aspas faz parte do poema "O guardador de rebanhos",
de Fernando Pessoa.

Diálogos Poéticos - Colaboradores : Ianê Mello, Ricardo Fabião
Related Posts with Thumbnails