O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




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domingo, 25 de março de 2012

Diálogo Poético : Enice de Faria, Joaquim Vale Cruz e Ianê Mello




ESPAÇO



Passo no espaço
Do compasso
Que sobra de mim;
me faço esquadro
no compasso
das horas
e nos sonhos
me desfaço
em pontos
e me recomponho
juntando os pedaços!


Enice de Faria




Pontos e traços
são como passos
dados nos espaços
em que pedaços
nos deixam lassos
com os abraços
que nos afagam…
Mas sobra de mim
o que tem por fim
desfazer meu sonho
mau ou risonho
em que me recomponho…
E em seus compassos
pontos e traços :
- junto os pedaços…


JVC – Fb - 2012-03-23




ESQUADROS



traço ângulos
perpendiculares
(tri) ângulos 
(re) ângulos
circundo retas
(semi) círculos
traço paralelas
(re) traio
(con) traio
expando
espio
esquadrinho
(re) cantos
recônditos
escaninhos 
crio nichos
esconderijos
cavidades ocultas
(a) dentro
por dentro
...
e fico.



Ianê Mello


*


Créditos de imagem : Pintura de Kandinsky





A geometria do amor tem vários desenhos
E ângulos estranhos
com vértices tais
perpendiculares expandidas
retas contraídas
e curvas ainda mais

Por isso uso o esquadro
a régua e um estrado
onde crio escaninhos
e em seus recantos
recônditos encantos
faço nosso ninho

E de coisas belas
traço paralelas
e não me sacrifico
faço o nosso leito
e nele me deito
e contigo…fico…

JVC 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Diálogo Poético : Ianê Mello e Joaquim Vale Cruz



O HOMEM QUE AMO


o homem que amo
já está ao meu lado
não preciso mais esperar
ele é forte e puro
coração todo amor
em seus braços
me protege
me embala em doce sono
sonho acordada
nos braços
do homem que amo
ele me olha e sorri
em nossa sintonia
compreendemos o sentir
sem palavras...
juntos nosso lar
construímos
tijolo por tijolo
suor e lágrimas
amor e sorrisos
com argamassa
firme e seguro
não, não preciso esperar
nem domingo, nem segunda
o homem que eu amo chegar
...


Ianê Mello


Ora cá estamos nós em diálogo após ler o lindo poema da minha Querida Ianê, pelo qual a felicito:


A mulher que eu amo, sempre está a meu lado
Ela é doce, ela é terna, e p’ra mim tem valor
E quando dela preciso, como o ser mais amado
Ela é meu poema e a expressão desse amor

Quando com todo o carinho, a tomo em meus braços
Só me pede que a embale em seus sonhos, em seu sono
E ao sentir-se envolvida no mais terno dos laços
Ela fica em descanso, no mais doce abandono

E ao sonhar acordada quando está junto a mim
Qual flor perfumada do mais lindo jardim
Ela fica calada e não precisa falar

E assim construímos o edifício do amor
Com lágrimas e sorrisos e momentos de dor
Em nosso doce enleio… e nesta forma de amar



Joaquim Vale Cruz






domingo, 12 de fevereiro de 2012

Diálogo Poético: Ricardo Daiha, Ianê Mello, Erika Foresti, Enice de Faria, Joaquim Vale Cruz




** MÊDO **


Mêdo de te olhar nos olhos,
De sorrir teu riso,
De iluminar teu brilho,
Nua;


Mêdo imenso,
Intenso e paralisante,
De ousar expor minh'alma,
À tua.


- Ricardo Daiha –

Medo de ver em seus olhos
o meu amor refletido


Medo de me perder
nesse amor que é infinito


Medo de me entregar
e nesse olhar me perder


Medo de encontrar
em seus olhos meu viver.


-Ianê Mello-



Ao sentir tua alma
Junto da minha
Saberia


Saberia da dor
Da alegria
Ou do amor


Não mais poderia
Sem saber teu ser
Teu riso, teu som
Me perder.


-Erika Foresti-




Não quero olhar nos teus olhos
Tenho medo em revelar
meus segredos
porque quando me revelo,
me torno vulnerável
ao teu desejo (que são meus)

-Enice de Faria-




Tenho medo de ti,
Não propriamente
mas será timidez..., tão simplesmente
de não merecer o teu amor…


Teus olhos são para mim como faróis
Que me cegam como se fossem mil sois
E nesta dúvida de não te merecer
Fico nesta espera, nesta dor, neste sofrer


E no teu riso, no teu sorriso, ando perdido
Como em noite sem luar de plena Lua
E a timidez, ainda me põe mais contido
Quando imagino o teu corpo, estando nua 
 



Por tudo isto meu amor eu fico tenso
Neste querer, nesta paixão que se avizinha
E sinto dentro de mim um medo intenso
De que tua alma não se importe com a minha…



Joaquim Vale Cruz

Diálogo Poético: Ricardo Daiha, Andre Melgaço, Erika Foresti, Paula Amaro, Edson Felizardo, Ianê Mello, Enice de Faria,Wilson Caritta




* NADA *

L e r,
SEM
T e r
LIDO;

V e r,
SEM
T e r
VISTO;

S e r,
SEM
T e r
SIDO;

T e r,
SEM
T e r
TIDO;

Nada.


-Ricardo Daiha-

MEDO


Quantas palavras escondidas
Nos volumes que não lemos
E portanto, não sabemos...
Imaginamos;
Quantas imagens não percebidas
Porque não atentamos aos detalhes
De esculturas simples entalhes...
Imaginamos;
Quantas vidas poderiamos ter,
Quantos desempenhos perdidos
Quantos atores teríamos sido...
Imaginamos;
Quantas paixões fogosas,
Quantas sinas amorosas
As perdidas quimeras ardorosas,
Imaginamos;

Elas existiram, existem,
E nós continuaremos,
Nesse inexplicável nada.
Pense!


- Andre Melgaço


O BICHO NADA


Que bicho tosco
É o Nada
que desfolha
toda a primavera

O nada assola
a varanda da casa
Atola a verde esperança
empunha uma lança
E dança

Na valsa da vida
embrulha a partida
mascara a ferida
E no fim, de novo
É nada!

Minha criança tem medo desse bicho.!
Que nada!...


-Erika Foresti-


Se do Nada venho e p'ro Nada caminho,
Não existo, não sou nada!
Penso que vejo e não vejo;
Julgo sentir e não sinto,-
e quando falo verdade, minto.
Que ser e não ser é este que não é?
De quem é esta vida que não tenho,
se quando penso que vou é quando venho?
De quem é este rosto que "conheço"
e o som das palavras em que tropeço
dia a dia, que não são, que nunca foram?
Onde estão o meu passado, o meu futuro,
e este estar e não ser, separados por um muro
onde vivem, nessa casa que não moram?
E se o nada não existe,
se as palavras são apenas sensações articuladas,
onde está a voz se a não sentiste?
Onde está a vida alegre deste mundo triste?


-Paula Amaro-


Adan voltando ao início
desde o fim
ao antes de tudo
haver assim
Ao aquém do princípio
Adan chegou enfim
a si mesmo no espelho:
Nada, e outra vez Adan


-Edson Felizardo-


O bicho Nada
anda ou nada?
se esparrama ...
voa na escuridão
até da alma
Vá embora,
bicho Nada!
Deixe-me
os sonhos, a calma
O Tudo te chama

... e sai de baixo da minha cama !


-Ricardo Daiha-


O NADA


E eu tenho medo
desse estranho bicho
que de mim se acerca
e logo se encosta
como quem não quer nada
e me deixa meio tonta
me tira do foco

Ele vem e ele vai
nesse jeito sem dono
e faz o que quer
me tira o sono
num quê de mistério
e num abandono
simplesmente me deixa

Se enrosca
me enlaça
me tira do sério
depois se afasta
e foge pra longe
deixando em mim
a eterna espera
a saudade de tudo
nesse nada que resta.


-Ianê Mello-


Este bicho nada
medonho, voraz
fez descer a noite
escondendo o sol
apagou as cores
da primavera
desfolhou as rosas
do meu jardim
sua silhueta
na janela
afugenta o sono
e amedrontada
muito assustada
acendo o abajur
porque o bicho nada
não suporta luz!


-Enice de Faria-


E do Nada fez-se o Tudo, ... e fez-se Tudo onde era o Nada !


- Ricardo Daiha -





Tudo sobre como resistir
nada para esconder
até contar porque
não vai existir
um outro dia
com as mesmas ondas
sensações conturbadas
um jeito secreto
pedir o beijo
partilhar o desejo...


-Wilson Caritta-


*

Crédito de Imagem: Pintura de Olivia Charmaine

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Diálogo Poético: Ianê Mello e Wilson Caritta






TEIA DA VIDA



A vida assim escorria
entre os dedos,
entre as mãos
e dela nada retia
na retina do olhar
que se perdia
em anoiteceres
de angústia e solidão
O tempo enredado
como teias
que se entrelaçam
num estranho balé
e eu prisioneira
presa certeira
enrodilhada em mim mesma
em meus próprios erros



Ianê Mello




PÁRIA




movia a caneta
entre os dedos,
trazia o tempo
e a poeira das ruas
perdia vida
por metro quadrado
de cada passo
pesado e cansado
andando ...
de encontro a sorte
movia a caneta atrás da morte...


Wilson Caritta.


*

Crédito de Imagem: Pintura de Susan Seddon Boulet

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Diálogo Poético : Ianê Mello e Joaquim Vale Cruz




Revirando o baú de poemas...

Ao Som de um Tango

A beleza em movimento sensuais,
cadenciados e pela paixão movidos
Dança que inebria os sentidos
provocando desejos contidos
por vezes nunca descobertos
E nesse enlaçamento de dois,
dois corpos num único corpo
pela música unificados e harmônicos
Sentidos aguçados e alma exposta
Rodopios e passos que preenchem
todo o salão ao redor
sob os olhares curiosos,
curiosos e extasiados de prazer
Cada qual ali sentado está a bailar
Cada qual em cada passo,
em cada rodopio...
A bailar em seus corações
que em emoções se perdem,
em lembranças que rememoram,
de antigos sonhos e paixões
Corações que amam
Corações que sonham amar
Um dia, novamente, quem sabe
apaixonar-se ao som de um tango.



Ianê Mello

(http://labirintosdaalma.blogspot.com/2009/12/ao-som-de-um-tango.html)
 
Cena do filme " Perfume de Mulher"
Tango: Astor Piazzolla " por Una Cabeza"




Lindo poema , querida Ianê.
Aqui há tempo, também o tango me suscitou este poema:



Ai o tango
Dança sensual
Em que o roçar dos corpos
Em passos rápidos
Lentos e lépidos
Suscita beijos sápidos
Quentes ou tépidos
Desfia a música
Em que o par se isola
Marcando o compasso
De Piazzola

Ai o tango
Em que me confundo
E com ela
Sonho
Um sonho profundo
Em que estamos sós
Bailando no Mundo

Ai o tango
Que eu quero dançar
Até meu final
A rodopiar
Sempre sem temor
De forma tão leve
Em compasso breve
Sentindo o odor
De uma qualquer flor
Nos braços do amor
Nesta vida breve…


Joaquim Vale Cruz

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Diálogo Poético: Ianê Mello, Andrea Lizarb, Leila Onofre





O PREÇO DA TRAIÇÃO


Derrama-se o cálice de vinho tinto
rascante
na veste branca e alva
de vermelho escarlate tingida

na nódoa viva e visível
a marca da punhalada
traiçoeira

desferida por mãos
infames

punhal de aço
cortante

na pele alva e branca
ferida aberta
sangra

larva que queima
erupção vulcânica



Ianê Mello


*Pintura de Lamis Dachwali.


TRAIÇÃO


Era mimo precioso
Um diamante lapidado
Fez com ele corte doloso

Sangra o gosto machucado
A luz límpida ficou escura
Quadro negro d’amargura

Traição, sofrer esmigalhado
Árduas cenas, arrogância
Estilhaçou, marcou distância






Vinho robusto se mostra potente
Invade-me com goles generosos
Sinto seu calor cativante na noite
Cá dentro trazendo o frio do dia
Com sua força frutífera passageira
Embriago-me no seu leito iludido
De conforto, de amparo, de alegria
....





Leila Onofre

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Diálogo poético :Madhu Maretiore & Wilson Caritta



"Clarividência das Águas"....
encontro poético por: Madhu Maretiore & Wilson Caritta


Um atalho...


"Escrever sobre as flores...
Ah, eu queria escrever
sobre as flores,
salvá-las de mim,
não misturá-las à idéia
de flor que carrego...

Madhu Mathiore. 
( Poeta de Claridade)


Amiga,

posso partir a - (manhã)
ninguém sabe da chegada
entradas e saídas
por reentrâncias
da vida. (Wilson Caritta)

I

- Não tenho técnicas, poeta.
Atravesso rios e não sei nadar.
Tudo é caos e ordem em minha vida...


Louco!...
Preciso de espaço para o teu abraço
...vamos então do caos ao cósmico...
Voce me emocionou
além do provisório fim.


(Madhu Mathiore)

II 

- Loucos não se atrasam
não sabem fazer curvas.
...: danço até na água
e com as borboletas...
pare com os últimos!
Todo dia é um tanto de começo
que não termina,
e um tanto de fim
que poeta qualquer ignora...


(Wilson Caritta).

sábado, 14 de janeiro de 2012

Diálogo Poético - Dija Darkdija, Ianê Mello e Joaquim Vale Cruz



Os sussurradores 


aos essessussurradosentrelinhas

...somossussurrosnóssomossempreseremos...

...somosasbestasquaissussurrampeloscantos...
...somossussurrosdasalegriasouprantos...
...somosostantosssussurradosnasorelhas...
...somossopradossomosdeusesdosencantos...
...somososessessussurradoscomosmantos...
...somososmantrasrecitadospelossantos...
...somosostudosnadassomossensitivos...
...somosssussurrossimplesmentesincisivos...
...somossussurrossacrossantossobreaslinhas...
...somosassombrossombrassombradosdestinos...
...somossurrossempremaisdospensamentos...
...somosussurrossempresomossemlamentos...

...somossussurrosnóssomossempreseremos...


Dija Darkdija

***A Arte da Viajosidade 


SERES ANTAGÔNICOS


Somos sussurros
que ao pé do ouvido se instala
Somos o próprio grito
quando o mundo não se cala

Sussurramos pelos cantos
mas gritamos desencantos
quando a dor nos aperta
e o sentir se avoluma

Somos o tudo que no nada se perde
somos o nada que no tudo está perdido
Somos a palavra que nas entrelinhas se cala
Somos em nós as entrelinhas que da vida se resguarda

Somos o verbo e o silêncio
somos os versos e a prosa
Somos o conto que encanta
Somos a história que lamenta

Somos sombra quando projetados
pelo sol na clara tela
Somos reflexo no espelho
somos a nossa própria imagem refletida

Somos alegria e lamento
somos esse agora, esse momento
somos o passado que nos devora
somos o amanhã que se revela


Somos tudo
nada sendo.


Ianê Mello

***Crédito de Imagem: Pintura de Salvador Dali "
Desmaterialização"




Sussurros
Há quem diga que sussurros todos somos
Sussurros do vento em seu lamento
Do nada que nós somos, sofrimento
E mesmo se em bicos dos pés nos pomos
Ainda assim, nós nada somos

Perante um universo tão diverso
Tão imenso em que estamos dispersos
Um mero sussurro nosso, não vale nada
Como nada vale uma palavra
Destas que nós pomos nestes versos

É estultícia, é loucura, é desencanto
O sussurro que aqui ponho neste canto
Pois neste sussurro que agora nem é pranto
Deixo a marca de um sussurro que em mim ficou
Por sentir que neste mundo, nada sou…

Joaquim Vale Cruz

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Diálogo Poético: Ianê Mello e Joaquim Vale Cruz





PORTA FECHADA



Eu grito
grito para as paredes
que não respondem
grito para ouvidos
que são surdos...


entre quatro paredes
aprisionada
sem janela para respirar
e uma porta fechada
um corpo fechado
na dor de ser


grito...
um grito sentido
um grito catártico
um grito de dor
um urro animalesco


mas a porta fechada
não se abre
...
meu grito não será ouvido


longe de tudo
longe de todos
tão longe que nem sei
aonde eu estou
longe até de mim mesma
do que em mim reconhecia
nisto em que me tornei


- SOCORROOO!!!!!!!!!!!!
Preciso que me escutem!


não, ninguém pode escutar
todos estão muito longe
todos estão alheios
dentro de si mesmos
... encimesmados


Grito, grito, grito...
até calar minha própria voz
que vem de dentro
até gastar as palavras...


Grito até perder a voz


mas todos estão tão longe
você está tão distante
sequer me vê
tampouco me ouve

mas grito mesmo assim
o que me resta
além do grito?


essa angústia no peito
essa dor que me consome
essa vida que não me vale?


Porque continuar a luta
porque acreditar
em que acreditar
em quem?

Meu grito ecoa
grita dentro de mim
reverbera em meu corpo
ensurdece a mim mesma
mas em vão...

...


ninguém escuta...


meu grito se vai
no vento
em parte fora
noutra parte dentro
em mim

são palavras vazias
que se perdem
no silêncio
que me devora

...


me encolho num canto
entre quatro paredes
sem janela para respirar
e uma porta que permanece fechada


uma lágrima escorre
sobre minha face
sinto seu gosto
em minha boca entreaberta

...


me calo.


Ianê Mello


Ouço lá longe o teu grito
De tanto horror e aflito
A soar como um clamor
Que tenho pena de ti
E até por isso senti
Tal como tu tanta dor

Mas nessa angustia perdida
Dolorosa e tão sofrida
Há uma réstea de esperança
E podes crer que longe embora
Rezo por ti toda a hora
Uma prece que não cansa

E essa lágrima que escorre
E pela tua face corre
Como uma estrela da tarde
Vai dar paz ao coração
E embalar-te nessa emoção
Que no teu peito ainda arde



Joaquim Vale Cruz





* Crédito de Imagem: Fotografia de Pavel Mirchuk







quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Diálogo Poético: Vanessa Vieira e Ianê Mello


FALTA DE AR

O ar que necessito
Vem da fuga
Que é meu esconderijo.
Vou e venho de lá
Como os galhos das árvores
Que balançam ao movimento
Do vento...
Sou o que sou...
E não consigo,
Não posso
Por enquanto
Ser diferente...
A falta de ar
Silencia-me a voz...
Cala-me
Faz-me nada
Porque sem voz
Nada sou...
Nada faço...
Nada...

Vanessa Vieira


PONTO DE FUGA


Há o momento da fuga
há o momento do encontro
Há o momento do silêncio
há o momento da fala
Há o momento de esconder-se
há o momento de expor-se
Encontrar o momento certo
é encontrar o equilíbrio na ação
Fugir agora pode ser preciso
e quem pode julgar?
Fugir às vezes esconde
a imensa vontade de ficar


Ianê Mello


Crédito de Imagem: 
Pintura de Rene Magritte

sábado, 27 de agosto de 2011

SÁBADO POÉTICO ( 27.08.11) - Livre criar é só criar (facebook)






HOMEM-LOBO

O homem maduro agoniza.

Em suas descobertas arrepiantes, 
Pensamentos angustiantes. 
Simbologias da solidão. 
Solilóquio e ruminação.

E o caos domina, eterniza. 
Guerra e redenções de eus,
Fantasia do real,
Signos seus e meus.

Mergulho fatal:
Cego, surdo, mudo
Teatro do absurdo.
Raro e feito para loucos

Anti-herói triste de poucos.
Jogo de espelhos de si
Só nos resta a fantasia:
Viver e aprender a rir.

Andrea Lizarb

Eu queria
Dançar-te a dança dos loucos.
Uivar o som dos lobos em lua cheia.
Levar-te na garupa de meus sonhos
Eu queria

Andrea Lizarb



Um homem solitário caminha no vazio mergulhado na letargia das páginas em branco. Entre vales e montes perde-se o seu destino. Não há nada escrito nas folhas do tempo perdido; e num vôo enlouquecido atravessa as suas dores e pousa no seu caos. Despe a sua loucura e continua só dentro da sua insanidade.

Ydeo Oga



O LOBO DA ESTEPE

Para Herman Hessse

Não faça barulhos surdos
ele dorme o sono dos covardes
não poderá lhe ouvir
enquanto  o vento sibila
acalentado nos sonhos
ele aquieta o lobo
que uiva dentro de si
fechados os olhos
animal contido
o pelo já acizentado
por anos vividos
o faro já enfraquecido
para odores mais suaves
os dentes não tão afiados
acostumado ao cativeiro
lá o lobo se esconde
pernas enfraquecidas
 para  as estepes íngremes
permanece solitário
num mundo que não é o seu
e quando a lua alta  no céu brilha
escuta-se, como um lamento, 
o seu profundo uivo de dor.

Ianê Mello



O Misantropo (Herman Hesse)



Lobo solitário viajante das estepes frias e longínquas
Misantropo endurecido pelo pós da guerra
Cantor de versos tristes e frementes
Lúgubres são teus dias enfadonhos
Mas que por algum motivo
E que motivo foi envolvido
Dormes com a noite
E sob o sol da manhã renova tuas veias
Vida in cauta
Envolvente literatura romanceada.

Giselle Serejo




Lobo Solitário da Estepe ( Herman Hesse )

Romanceiro da tua própria vida
estranha, solitária, profunda
caucasiano literato feito sangue pulsante
inebriante literatura a tua
queima como o sol da Naníbia
a tua prosa cautelosa
nada fria
Constantino, Rei
nunca me cansei de te ler.

Giselle Serejo





AOS NOSSOS LOBOS

seu martírio
é nossa prisão
o medo do selvagem
ato intuito
impulso livre e natural

na esperança de o deter
o colocamos atrás de uma jaula
escura
mas seu cárcere não nos sacia
do gosto de sangue
da sua carne viva

“a fera está contida
tudo sob controle
não há o que temer!”
gritamos a todo instante
sem convencimento
pois sentimos a força de um olhar
silencioso e manso à nossa espreita

humanidade morta
seu animal vive
atrás da porta
do pensamento

Gustavo Gomes de Matos



Profano e Sagrado

Se ele fosse movido só pelos sentimentos,
Viveria a vida boêmia, amante e sublime,
Se sua não fosse a face aguda da burguesia,
Se a santa vida não fizesse o descrime...

Se ele pudesse trevas e luz misturar,
A dualidade do profano e o sagrado,
A unidade de personas pudesse encontrar,
Se houvesse mil espectros em um unificado...

Seria como os coesos amantes 
Sentiria a voragem oculta, transcendente
Que se cala em maridos e fala aos amantes.

Integraria santo e libertino 
Esqueceria as razões circunstantes
Seguiria o pólo magnético do destino.


Andrea Lizarb








O LOBO É O HOMEM DO LOBO



Vida esponjosa
manancial úmida
goteja sólida
selvagem natureza.
O lobo engole o homem
sentida angústia


digere aos gritos o que o sofrimento cala;


no vômito, encontro poucas certezas


quem sou diluiu-se no estômago ácido.


O radar avisa:

Limite de velocidade na próxima curva.


-Não posso! Preciso continuar fugindo...

Acabei de atropelar a criança que um dia fui.

O melhor de mim hoje morreu.





Lou Albergaria





Imagem: William Blake







LOBO, LUPUS, LUPO

Lobo, Lupus, Lupo
Caçador e caçado
Sou vários de um todo
Uno e divisível
Solitário e terrível

Lobo, Lupus, Lupo
Do astuto e temível
Restou o arruinado, o carcomido
Da matilha escurraçado
Quase que um morto-vivo

Lobo, Lupus, Lupo
Antes dono da floresta
Líder e andarilho
Percorro agora
A trilha que me resta
Só e maltrapilho

Lobo, Lupus, Lupo
E assim, por essa sina
Uivo à noite para a lua
Prucuro resposta do luar
Para o que fui
O que sou
E o que será
De mim

- Ricardo Daiha -



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