O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Diálogo Poético Naldo Velho e Ianê Mello





NÃO QUERO


   Não quero a letra fria,
   mal intencionada e perversa
   a promiscuir-se em meus versos,
   pois a ela só interessa
   destruir minha emoção;
   tão pouco a rima obscura,
   corrompida e grosseira,
   a envenenar meus poemas
   e a acasalar-se obscena
   às lembranças, histórias,
   guardados...


   Não quero a imagem obtusa
   a poluir minha saudade
   com racionalismos, verdades,
   deixando-me os sonhos
   reclusos na desilusão.
   Prefiro chorar meus poemas,
   em versos que sejam de chuva,
   ou então de incertezas de planos,
   de notas demenciadas de um piano,
   de caminhos por ruas incertas,
   madrugadas inteiras de insônia,
   pois só assim eu me vejo completo
   e mantenho acesa a chama
   que existe em meu coração.


   Naldo Velho


ENREDANDO VERSOS



Ah, versos que caem

em gotas de chuva
versos que se esvaem
em lágrimas contidas
em folhas nuas
brancas e sem vida
em palavras cruas


Ah, versos que se nutrem
de dores e de amores
Versos que fluem
transbordando em cores


Ah, versos que são puros
que transpõem muros
Versos que se quedam
Versos que se enredam




Crédito de Imagem: Foto de Cartier Bresson

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Dança em Descompasso

Cartier Bresson 




O meu par se afastou um pouco
Ele estava levemente alterado
Queria porque queria me enlouquecer
Pediu algo para o chefe da orquestra 
Depois soube que era uma valsa


Girando, girando...
minha cabeça  a rodar
Pensei que fosse um tango
"Por una cabeza" a imaginar


inventa-se tudo à girar
mão na mão, face na face
os passos sem medidas
acentuam o desajuste
da tonteira que isso dá


Bem poderia ser Astor Piazolla 
na vitrola a rodar
mas ele queria uma valsa
em seu passos a bailar


Cada vez que ela sente
perfumes que lhe chegam
como surpresa "caliente"
sua alma a girar mais ainda
passos de tango em Paris


Essa era a questão
num olfato tão apurado
estava mais para um tango
"caliente" como a estação
o verão que se aproximava 


Juventude que se esvai
cada tropeço uma sentença
danças de salão anoitecem
almas que quedam acesas
chamas a si mesmas corroem


E num olhar de mormaço
se perdem no passo a passo
inebriados de vinho
entorpecidos de amor


A vida imita a arte
som de passos que desistem
acomodam-se no ir embora
a luz que apaga a orquestra
é a mesma que acende a rua


Há que se ir sem demora
na parada do hotel da esquina
onde a vida se enamora
enquanto a madrugada finda

Beto Palaio e Ianê Mello




Ai o tango
Dança sensual
Em que o roçar dos corpos
Em passos rápidos
Lentos e lépidos
Suscita beijos sápidos
Quentes ou tépidos
Desfia a música
Em que o par se isola
Marcando o compasso
De Piazzola

Ai o tango
Em que me confundo
E com ela
Sonho
Um sonho profundo
Em que estamos sós
Bailando no Mundo

Ai o tango
Que eu quero dançar
Até meu final
A rodopiar
Sempre sem temor
De forma tão leve
Em compasso breve
Sentindo o odor
De uma qualquer flor
Nos braços do amor
Nesta vida breve…





Joaquim Vale Cruz

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SE COMPREENDE




Promete-se tanta coisa
sob o efeito analgésico do anizete
Um trenó cheio de presentes
uma casa em Biarritz
Um diamante em discreto anel
promete-se tanta coisa
Na busca do sonífero da hora
ao bater aflito do coração
A solidão compartilhada
Num jardim de desejos
Há que compreender
as juras que nunca se realizam
Quando pela manhã
recolhemos um sapato aqui outro ali
A meia esquecida na sala
e o dia chuvoso em Paris
Ruim demais para todas as coisas
até para apanharmos um táxi.


(Beto Palaio)
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