O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




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quarta-feira, 24 de abril de 2013

EU E VOCÊ NA CHUVA - Beto Palaio




eu amo chuva e café
enquanto na areia da praia
gramas que nunca nascem
a chuva cai sem proveito

o perfume do café
na chuva da manhã
convida, até desistirmos
do sono vencer a vontade

o chão que é feito de areia
esconde-se no tapete de mar
varre a areia os mil desejos
de ter você para o amor

de manhã não há planos
a chuva cai de mansinho
o café nos chama de novo
a gloria de viver se completa

Beto Palaio

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

VOCÊ, DONA DA POESIA ( poema-homenagem por Beto Palaio)





Você possui
céus profundos
infinitas horas
lembranças inventadas

Você possui
rosa dos ventos
poesia que autoriza
viagens imaginadas

Você possui
chão que pisas
pedras que volteiam
águas misteriosas

Você possui
passos discretos
passagens proibidas
desejos inadiados


(Para Ianê Mello)


BETO PALAIO


(foto de Brent Lambert)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AMIGOS



Alguns amigos são
como o sol:
aquecem-me
mas cumprem um ciclo
próprio e inabalável.

Alguns amigos são
como a chuva:
renovam-se
renovam-me
e vão embora.

Alguns amigos são
como a árvore:
protegem-me
mas são irredutíveis.

Alguns amigos são
como a terra:
geram o que
lhes é plantado.

No teu dia,
ao espelho,
descobrirás
que cada um deles
vive em ti.


(Jane Chiesse)


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Plano de viagem




As malas
Estão
Prontas
[Desde
Sempre]
Encostadas
Num
Canto
Do meu
Pensamento


O mapa-múndi
Aberto
Sobre a mesa


Muitos
Lugares
Me chamam
[Incessantemente]
Em vão:
A viagem
Tem de ser
Para dentro


Zelia Guardiano




Na minha mente, à procura do exótico...
Numa escultura na areia da praia,
num mergulho à procura do que não existe...
A tranquilidade com que me olho...
O amor que tenho pela vida...
O Mapa assinala os locais, nunca as pessoas....



Marta




Chegou enfim o dia da viagem
As malas no pórtico a nos esperar
Mãe e pai aflitos por um beijo
E nosso pensamento longe
Seguindo já uma estrada difusa

Que até hoje viajamos sem cessar.


Beto Palaio




No corredor
a bagagem de uma vida
em simples malas 
que se perdem no chão
e no vazio 
de uma existência de amor
Representantes do fim
e do começo
Vida que se reparte 
em compartimentos estanques
entre o corredor
e a porta de saída
que um dia serviu de entrada 
para algo muito maior
E o tempo nessa fachada 
se encarregou de destruir.


Ianê Mello

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

NO LARGO DA CARIOCA






Existem horários tão rígidos
Para todos que correm ali
Uma praça de dias cariocas
Com seu obelisco excêntrico
Seus três relógios distantes
Com horas distintas cada um

Imagine que ali não haja tempo
Que não passará para nós dois
Por mais que cuidemos tentar
Jamais nosso tempo se perderá
Ficará em nossas mãos o ir e vir
De areias faiscantes a renovar-se

Tomamos os braços da viagem
Com boas razões para fugirmos
De um mundo paralelo que existe
Onde orelhões imundos desafiam
As leis e a ordem natural de tudo
Propondo infinitos amores grátis

Um vento agitou a praça carioca
Folhas de jornais voavam ao alto
O Jornal do Brasil se demitia daqui
Do mundo das notícias ilusórias
Para se acomodar noutros mundos
Onde a mensagem é segura e fiel

Nenhuma paisagem pode ser vista
Deste lugar onde a alheias paredes
Opõe-se um cercado sem biografia
E quem anda por ali só tem pressa
Tudo a dar razão ao tríplice relógio
Em partir, em chegar e em ir embora

Uma fuga que os amantes não notam
Nada lhes foge em aborrecida pressa
O tempo como em sutil cumplicidade
Entrega às horas vazias um cardápio
Repleto de iguarias que lhes alimenta
A alma e o coração em febril regozijo




BETO PALAIO

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Desafio poético

Desafio poético a partir da tela do amigo Vino Morais.




Corpos femininos que se mesclam
em contornos sensuais das encostas
Olhos perdidos no horizonte à espera
em total entrega e abandono

Ianê Mello



Ao longo da planície-mulher
Rios e montanhas de feminilidade extremas
Um corpo se desnuda e se entrega
A felicidade é uma paisagem de amor.


Beto Palaio




Na areia anoiteço
Mais uma promessa de Sonho.
O frio devora
coração e prece;
Preciso voltar pro útero.

Lou Albergaria




Terra contornada por mim.
Energizada, dissipo-me.
O equilíbrio é térmico,
o corpo é adornado,
a mente, centelha que resta.
.
Lara Amaral


Na brancura macia da nudez que visto
A oliveira e a maçã fazem-se deuses da imaginação...

Rodrigo Della Santina



Ansiedade, saudade.
Antes e depois.
Fome, sede.
Agora e sempre.
Macho - Fémea
Luta, apunhala,
(En)terra.
Semeia
Mãe


João Miguel

Não sei verdadeiramente o que penso...
Deixo fluir...
A alma, os sentimentos, o desejo pela nudez aparente do meu corpo...
Aparente, porque ainda te sinto a amar-me...
Forte, poderoso como o Sol que me namora, mas que ignoro...
Porque só me entrego a ti, ao teu cheiro, ao teu desejo na minha paixão desencadeada....


Marta


Na tela uma Arte
No corpo a Geografia
Na vida... História
Vã filosofia
Mera Psicologia
Talvez psicografia
Na escola da vida
Interdisciplinar
É o teu ser... MULHER.


Jairo Cerqueira
 


Diálogo Poético - Colaboradores: Vino Morais(tela), Ianê Mello, Beto Palaio, Lou Albergaria, Lara Amaral, Rodrigo Della Santina, João Miguel, Marta, Jairo Cerqueira

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

SE COMPREENDE




Promete-se tanta coisa
sob o efeito analgésico do anizete
Um trenó cheio de presentes
uma casa em Biarritz
Um diamante em discreto anel
promete-se tanta coisa
Na busca do sonífero da hora
ao bater aflito do coração
A solidão compartilhada
Num jardim de desejos
Há que compreender
as juras que nunca se realizam
Quando pela manhã
recolhemos um sapato aqui outro ali
A meia esquecida na sala
e o dia chuvoso em Paris
Ruim demais para todas as coisas
até para apanharmos um táxi.


(Beto Palaio)

domingo, 15 de agosto de 2010

Dance, dance, dance...

Pinturas de Nik Helbig



Dance, dance mesmo assim...
Dance pelos momentos fugazes que nunca mais se repetirão...
Dance pelo botão de rosa, promessa de nova vida...
Dance pelos meninos e meninas de rua, que só conhecem a desesperança...
Dance pelos sentimentos tardios, que nunca deram em nada...
Dance pelos arrependimentos, que sufocam o pecado saudável...
Dance pelo arco-íris, o coveiro da chuva de verão...
Dance pelo amor eterno, aquele que um dia sempre acaba...
Dance pelo primeiro beijo, que reduz o infinito a um segundo...
Dance pelo vestido da Marilyn Monroe, outrora tão recheado da dona...
Dance pelo final de Casablanca, o início de tantas amizades...
Dance pela fabrica da Studebaker, que faliu em 1966...
Dance pela tinta zarcão, que esconde a implacável ferrugem...
Dance pelo anjo-da-guarda, o discreto e bom conselheiro.
Dance pelo sistema plantation, que vai desertificar a Amazônia...
Dance pelo instante do orgasmo, que foi, é ou um dia será...
Dance por você, pensando numa salsa cubana...
Dance pela humanidade, pensando num merengue paraense...
Dance pelos inviáveis, num samba quadradinho e sincopado...
Dance uma valsa vienense, pelo sucesso do seu vizinho...
Dance, dance mesmo assim: pelo teu último sonho, pela próxima notícia,
pelo sol que brilha na praia ou por uma vida nova e repleta de oportunidades...
Dance pelo que você jurou que seria e que ainda pode ser, pois tudo
só depende de sua dança... 
 
 

(Beto Palaio) 
 
 

Feche os olhos e sinta
O toque penetrante
dessas cordas vibrantes
na pungência da emoção
Deixe penetrar em seu coração
e a alma flutuar leve
Libere seu sentir
Não contenha os sentimentos
Simplesmente sinta
...deixe-se fluir
e será como um rio caudaloso
escorrendo e lavando a dor
Sinta o sangue a correr em suas veias
Sim...você está vivo!
Deixe-se tomar por inteiro
A música invadindo seu corpo
e penetranto em sua alma
Apenas sinta...
Solte seu corpo
Se liberte das amarras 

... Se solte...
 
e numa explosão de amor


.....   dance
........       dance
...............         dance .........


a dança do amor sem fronteiras


Ianê Mello

Ouça: Trio Joubran - The music is from album "Sou' Fahm"- Samir Joubran

sexta-feira, 30 de julho de 2010

ENTRE OS ANDES E VENEZA


Foto de Edward Weston.


Não tinha data marcada
você entrou na minha vida
entregou-me todo seu ser
sem pensar conseqüências
se um momento de prazer
matasse aqui a esperança
no coração que escorrega
na aragem desde tempos
imemoriáveis, quando ali
não havia algo esperança
de eu me imaginar vadio
quebrado, invariavelmente
só, tanto assim que estive
entre a surpresa de te ter
e a vontade de me ocultar
no vazio que me sugeria
me enroscar em caracol
voltar para o útero nadas
ficar entre os Andes e o
cais do porto em Veneza
para lá e para cá a somar
sua falta, na falta que faz.

(Beto Palaio)
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