O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sinto-me assim!


Hoje, sinto-me assim!
Um fantoche de mim.


Bravo





Televisionado


A tv disse ‘ligado’
Eu iniciei
A tv disse ‘compre’
Eu comprei
A tv disse ‘vista’
Eu vesti
A tv disse ‘beba’
Eu bebi
A tv disse ‘seja’
Eu fui
A tv disse ‘vote’
Eu votei
A tv disse ‘alienado’
Não entendi
A tv disse ‘desligado’
...
A tv disse ‘ligado’
Eu voltei.


Ricardo Fabião 



Acordei...mais um dia
Vesti-me como uma autômata
Jeans,camiseta e tênis
Cabelos em desalinho
Olhos de uma noite mal dormida

Dentro do peito um vazio
Uma vontade de nada
Bati a porta de casa e saí
Tudo parecia tão igual
Eu tão igual a mim mesma

Os olhos embaçados
turvavam minha visão
Seriam lágrimas que rolavam em minha face?
Não importa, é sempre assim

Caminhei...caminhei... quanto tempo não sei
Tanto faz, afinal, o que é o tempo?
Pensava que ao sair à rua encontraria mais calor
Mas senti mais frio do que antes

Pensava encontrar rostos amigáveis,
uma palavra, um abrigo
Mas meu corpo estava frio
Cada vez mais gélido

Voltei pra casa correndo
Deitei enrodilhada em minha cama
Puxei o edredon até não mostrar mais meu corpo
Pouco a pouco meu corpo se aqueceu...
Adormeci.



Ianê Mello




Às vezes, sinto-me tão só...
Baixo os olhos, não sorrio, quero ser apenas sombra....
Se baixo os olhos, não posso ver o sorriso dos outros...
Se não sorrio, também o Sol não me sorri e sinto-me realmente só.
Sou esquecida....o meu nome é uma folha velha no lixo...
Marta


Diálogo poético - Colaboradores: Bravo(imagem e poema), Ricardo Fabião, Ianê Mello, Marta



sexta-feira, 14 de maio de 2010

Incógnita


Não sei mais
Quem sou

A goteira
Estragou
Meu último
Retrato

Uma foto antiga
Três por quatro

Zélia Guardiano


Ainda me falta um quarto
vazio para me achar
as coisas são miúdas
ainda assim não sou grande
sou miniatura na minha esfera
que me consome

eu tão esmiuçada
em terra de gigantes

Lara Amaral



Anônimo

Não me exijas identidade,
que não decoro tanta coisa:
sou a protagonista da novela,
sou a manchete dos jornais,
sou a estrada para o devir,
sou o estádio e seus gritos,
sou o descaso dos políticos,
sou a libertinagem do sábado,
sou a inquietude dos amantes,
sou a proibição da Igreja,
sou a etiqueta do laboratório,
sou o passo que falta à coragem,
sou a verdade que esperneia,
sou a impunidade que cala,
uma boca mais à fome,
uma poltrona só na sala,
a maca esquecida na emergência,
uma solidão a tentar o dia,
uma presença a menos em si,
um cartão de onze números,
um voto a mais nas urnas,
um cálculo nas estatísticas,
caio com a velocidade dos rios,
subo com a monotonia das torres,
repito os vazios da multidão,
digo as palavras que não entendo,
e sigo no caminho que não vou,
pois só vejo quadrados e controles...

dizem que sou raça humana,
que trago o mundo como registro,
uma lacuna para o pensamento,
um destino para um devaneio,
sou assim disso que não sei...

não, não me cobres identidade;
explora tu o meu pendrive,
onde cabem os tantos que sou,
e esses poucos que não sou.

Ricardo Fabião


Diálogo poético - Colaboradores: Zélia Guardiano (pintura e poema), Lara Amaral e Ricardo Fabião

terça-feira, 27 de abril de 2010

Raça de cães!... / O desvio


Raça de cães maltrapilhos
Que se erguem das cinzas
No meio da neblina
De uma selva nua.
Subjugando
O ser humano
A uma vida escrava.
Deixando somente
Restos mortais
De um sonho de liberdade.


Bravo



Raça de cães, andarilhos,
Homens-cães, tanto faz
Ora usam da força física
ora subjugam na mente
de um ser [in]defeso
mulher, normalmente,
a inocência tão somente.
Ferem a psiquê, tolhem
com técnicas, sem éticas
E derrubam, ACABAM
com um ser, podres raças
que erguem uma taça ao
prazer de ver no outro
já subjugado, o sofrer.


Mirze Souza




O desvio
    

  
  Eles eram milhares, uns sobre outros, com aquele escuro pesado dentro dos olhos. As ruas estavam tomadas, os sorrisos tomados, as possibilidades... 
    Passei calado com uma poesia escondida sob a pele, lentamente para que ela não acordasse ali. Eles me viram mas não sabiam meu desvio. Não puderam entender que guardo mundos, que arrisco minhas noites em rima e verso. Isso é muita estrada para o nada que carregam por dentro. Tomei a primeira esquina e saí...     
    Adiante, retirei do bolso uma luz já meio apagada e colei-a no céu para virar lua acesa. Ficou metade viva apenas, amarrotada de tanto esquecimento, mas era ainda uma lua que se via. - Pronto, a humanidade tem meia luz para uma chance. Do outro bolso puxei um velho sonho e o deitei em algum lugar. Dormi dentro dele e apaguei as chaves que retornavam... mas lá fora deixei a lua para guiar outro desvio.



Ricardo Fabião



Víboras peçonhentas
Mal amadas e ressentidas
Que na fraqueza dos que oprimem
Se fortalecem sem ver virtudes.
Na lágrima amarga da ilusão
Forjam o sorriso enganador
E enganam as dores que sentem à noite
Na solidão que lhes cobrem os rostos
Sugando o sangue dos que lhes beijam.


Jairo de Salinas
 


Diálogo Poético - Colaboradores: Bravo, Mirse,Ricardo Fabião, Jairo de Salinas. 


terça-feira, 9 de março de 2010

O aprendizado do caminhar / Uma palavra para mil silêncios





Assim a vida caminha,
passo a passo,
no compasso único de cada ser
Uns caminham lentamente,
buscando segurança em cada passo
Outros, mais afoitos, apressam o passo
e por vezes se perdem no caminhar
Faz-se necessário achar o ritmo,
a cadência harmônica neste caminhar
Cada passo pode mudar uma vida
Sejamos, pois, cautelosos
e tenhamos a sabedoria de compreender
o momento de avançar com cautela,
o momento de acelerar 
e o momento de desacelerar o passo
O momento exato de retroceder 
Sim, pois o passo não tem uma única direção
não pode ser sempre em frente
sem medir as consequências,
sem pesar os limites de cada um
Sempre existem vários caminhos,
possibilidades diversas neste caminhar
se apresentam a cada instante
Temos que ter os olhos bem abertos para ver
e sentir o que nos diz nosso coração
Aprendamos como o tigre,
que com toda coragem que possui,
recua o passo quando pressente o perigo
Observa... sente o momento certo 
e aí sim, volta a avançar.



Ianê Mello




Uma palavra para mil silêncios


Estando já meu último passo...
 
Não quero deixar só saberes
Que dizem tão pouco de nós
Não quero cobrar só deveres
Que tendem calar nossa voz
Não quero deixar só dizeres
Que silenciam no voar dos anos
Não quero propor só fazeres
Que cercam haveres humanos
Bom seria não ter que falar
Nem explicar…
Deixar-se apenas acordar
E perceber-se no outro
Deixar-se apenas tentar
E entender-se com outro
Deixar-se apenas respirar
E completar-se de outro...
Não quero erguer as bandeiras
Nem guardá-las
Não quero construir as maneiras
Nem evitá-las
Não quero desmontar as ladeiras
Nem levantá-las
Só basta um caminho, uma chance
Uma mão que se alcance
Para que haja possibilidade de sermos nós
Haja necessidade de rompermos os nós
Para sermos raízes, base e solidez
Para crermos matizes, tons, lucidez
Em terreno qualquer o que cada um é
Indo até onde e como puder…
Peço que não calculem a vida
Há muito que viver perdeu as fórmulas
Há muito que crescer além das fábulas
Há muito que enxergar mudou de século
Há muito não há que sermos máquinas
Há pouco a se dizer…
Há mais o que silenciar.


Ricardo Fabião




Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello e Ricardo Fabião

domingo, 7 de março de 2010

PALAVRAS TATUADAS/ LIRA PERDIDA / ATHENE NOCTUA* / LIMITE



 

As palavras se esvaziaram de mim
e sem elas me sinto nua
Quero vestir-me de palavras novas
Quero sentí-las tatuadas em minha pele.




Ianê Mello

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LIRA PERDIDA

Na página adiante, a fria alvura
É um mar de tão branca secura
Que por tal palavra me faltasse
Na letra ausente eu me afogasse

E tateio, adivinhando a tessitura
Se dela inda estivesse à procura
Qual se a mim mesmo buscasse
Num travo à língua, um impasse

É que falta a cor, se oculta a face
O próprio verbo criador descura
Qual se do fiat lux se ausentasse

E clama a metalingüística lisura
Na folha maculada, em sua alvura
Que eu a mim mesmo edificasse


Francisco de Sousa Vieira Filho 
['sede oleiros de vosso próprio barro.']

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ATHENE NOCTUA*

Ah, poesia, linguagem caprichosa!
Do bom-ócio grego, o farto ventre
Dúbia e faceira, mansa e chorosa
Qual se nos achega quase sempre

Em sua dança geniosa não se curva
E se ao bel sabor o sentimento turva
Mal se presta a falar o que só pode
Cantar o coração em cifrado códice

Suas belas asas não deixa vergar
A quem só dela foge, se a pretende
Esforço vão, a vil noção conceituar

E em seus profundos olhos tende
Se co'a Filosofia alça vôo acúleo
A desbravar o horizonte cerúleo


Francisco de Sousa Vieira Filho

FONTE: VIEIRA FILHO, Francisco de Sousa. Lira Antiga Bardo Triste. Teresina - PI: Gráfica e Editoria O Dia, 2009. v. 500. p. 14.
* Athene Noctua era a coruja de Atenas, símbolo da Filosofia.



Limite 





num gesto desesperado
retirou da bolsa a última palavra...
lançou-a contra as cercas da própria alma;
escaparam dois gritos e um poema


Ricardo Fabião




A imagem acima foi extraída do endereço: http://humorgrafe.blogspot.com
Chama-se "A fuga"; seu autor é Agim Sulaj


Diálogo Poético - Colaboradores: Ianê Mello, Francisco de Sousa Vieira Filho e Ricardo Fabião

quarta-feira, 3 de março de 2010

"Bebi as Estrelas"

Bebi as estrelas
e saí ébria a rabiscar o mundo.
Entornada em pranto líquido,
a minha face,
o vento acariciava,
os meus cabelos
de repente,
transformados
feriram as pontas dos dedos.

Viajei na madrugada,
libertei os meus fantasmas,
e encontrei
a magia das mandrágoras,
e quando cortei
as dores pela raiz,
mais alto chorei.

Jogada em leitos
de rios de quimeras,
sou afluente de tudo,
é aí que me encontro.

Devoro as flores
antes dos frutos.
Sou ave,
e aspiro o pólen,
e sorvo o néctar.

E dos gritos doridos
eu preencho
os meus ouvidos internos.
E nas línguas de fogo
do lirismo,
eu me queimo.

Bebi as estrelas...

Maria Florჱܓ




"Combustão"

... E com estrelas piscando dentro da alma,
e com as células repletas de mundos,
vou rabiscando os vazios da existência
até que se tornem campos floridos...

Lanço olhares sobre a guerra dos homens
e choro baixinho por trás das cortinas;
a desejar que sejam apenas pesadelos,
e que logo se agigante uma nova aurora.

Depois com minhas alegrias de menino,
desço aos porões onde florescem poesias,
colhendo uma por uma com preciso zelo;
e os braços coloridos de verdes e laranjas
não são meus somente são as sementes,
grãos para as manhãs que ainda dormem.

Levo isso no meu cesto: estrelas e poesias.
É a mensagem que semeio junto aos rios.

E por onde segue minha febril carruagem,
alcanço de olhos ao longe sobre os ombros
alguém que apanha um verso meu deixado;
E logo vê-se a chama dentro dos cercados,
tão instantaneamente que milagre parece,
o desejo de investir amor contra as paredes,
força de ousar paixões para além da estrada,
de não ser apenas mais um só dentro do todo,
por ser brilhando com tudo um de dentro só.


Ricardo Fabião


Diálogo Poético - Colaboradores : Maria Flor, Ricardo Fabião
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