Embriagado de necessidades
Desesperado pelas carências
Saio à rua a divagar
E devagar vou derramando
As sobras do que me faltou
Expiro, penso, reflito:
“Acho que morri... um pouco”! (não muito)
Aproveito o que ficou desse óbito inacabado
E então, enfraquecido e impotente
Vou aos poucos me refazendo
Suspiro, tenso, conflito:
“Acho que não morri... ainda”!
Ressaqueado de necessidades
Acalmado pelas carências
Entro na rua devagar
E rapidamente vou catando
As faltas do que me sobrou
Aproveito o que restou dessa vida inacabada
E então, fortalecido e potente
Vou aos poucos me desfazendo
Respiro, denso, admito:
“Acho que não vivi... plenamente”!
Jairo Cerqueira
Gostaria de dizer palavras fáceis
Doces como o mel ao se saboreá-lo
Sinto decepcioná-los, mas essas palavras
são amargas como fel
e difíceis de engolir
Quem disse que a dor não existe
e que não há motivo para ser triste?
Quem disse que a vida é fácil
Bastando vivê-la com sabedoria?
Quem disse que o sol nasce todos os dias
e a lua sempre brilha majestosa?
Quem disse que o viver é aprender
a criar com as próprias mãos as possibilidades?
Quem disse que as intempéries são pequenas,
fáceis de se livrar a qualquer momento?
Quem disse que é simples o discernimento
da melhor escolha para nossa vida?
Por vezes nem temos o poder da escolha
e nos sujeitamos ao que nos é escolhido
Viver dentro de uma grande bolha...
pra mim não faz nenhum sentido
Amarras não as quero mais
De que me servem as mãos atadas?
Quero-as livres pra senti-las como minhas
Quero escavar meu próprio chão
Não se engane, meu amigo...
A vida, não é fácil não.
Ianê Mello
Diálogos Poétidos - Colaboradores: Jairo Cerqueira(ilustração e poema), Ianê Mello ( poema)