O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Revelação




Rubra
Como o ocaso
&
Dura
Como o silêncio
He
A lágrima que morre
Junto ao soluço estrangulado

RODRIGO DELLA SANTINA

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Não há tempo




Não há tempo para dores inexpressivas
Não há tempo para canções altruístas
Não há tempo, nem espaço, para ideias a vapor
Não há tempo para rimas espelhadas
Acentos sonorosos linhas rejuvenescidas
Não há tempo para cortes educados nem cortes anarquistas
Não há tempo para sons geométricos perfeitos que não sejam
          [provenientes da íntima significação do verbo ser.

(O tempo é para mãos fortes
Talhadas no asfalto
Nos girassóis da ciência nos odores da tecnologia
No trono do Universo
O tempo é para olhos velhos de simplicidade
Para almas cândidas de versos).

Não há tempo para dores obscuras.
Há tempo para o Homem primitivo, no sentido mais original da
                                                                                                       [palavra.

RODRIGO DELLA SANTINA

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Eu, Epimeteu acorrentado




Ó magna corrente! Ó sublime ferro,
Que trava relações com minha carne!
Ó sangue abençoado, que a forjar
Me está a alma para este Novo Império!

Eu vos invoco! Vede quão sincero
E justo é o meu tormento, como arde
Em mim o Fogo (aceso, a crepitar)
De eras remotas, de hoje e dos Mistérios!

Império, ó divino Império, tábua
De Liçoens, muro redemptório, báculo
De fé, deixa-me preso a este rochedo!

Guarda-me ao Pensamento, à Voz! Guarda
Todas as Cores e todos os Sons!
Dize-me da Sorte, como um Oráculo!

RODRIGO DELLA SANTINA

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Liberdade




Acordo (ainda é noite) na escureza
Do quarto e vou às cegas procurando
A maçaneta, no tempo quando
Numa barra de ferro acerto a testa.

Com sono, dolorido, sem contexto,
Caio, bunda no chão, imaginando
Que diabos uma grade atravessando
Faz o meu quarto, como eu fosse preso.

Procuro o interruptor; e quando o encontro
Aperto-o e luzes vêm de todo canto.
’Stou dentro de uma jaula, qual cobaia.

Fora, a me cingir, há três homens brancos,
Sem faces, ansiosos, como santos,
’Sperando que a Loucura de mim saia.

RODRIGO DELLA SANTINA

domingo, 12 de agosto de 2012

Trovoada



Como é triste o retumbar das vozes
Que num círculo mudo
Silencia
As próprias pegadas

RODRIGO DELLA SANTINA

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pedra de barro



És como pedra de barro:
Aparentemente dura.

Gestos, cores, sons,
Forças hercúleas e céleres
Estrangulam tua alma.

Que fazes?
Que direitos tens sobre tua vida?

És como aquela pedra...
Apenas.

RODRIGO DELLA SANTINA

sábado, 14 de julho de 2012

O canto



Canta passarinho sobre o galho cortado
Seu canto é lamento
Sua casa
Destruída
Só lhe resta cantar
sobre o galho cortado

Canta, pois, passarinho
Minha alma é sem lar...

RODRIGO DELLA SANTINA

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Uma folha



Deita-se
Na superfície
Do rio
Uma velha folha

É como um barco à deriva.

Fico olhando-a ir-se com todo o meu coração...

RODRIGO DELLA SANTINA

domingo, 1 de abril de 2012

Um gato



No meio
Da rua
Depois do trabalho

— Um gato

(Antigamente livre).

RODRIGO DELLA SANTINA

quarta-feira, 28 de março de 2012

O gafanhoto


Salta gafanhoto.
Aparta-te da civilização.


(Vais ligeiro.
Vais para a grama a que pertences.
A longos e grandes saltos...).




Eu, que te vejo,
Invejo o teu salto.


Num único segundo tens a graça do vento e o calor do sol...

RODRIGO DELLA SANTINA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Saudade, saudade...



Saudades da minha casa,
Saudades do meu Amor;
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor...

Saudades do meu sossego;
Dos livros na minha estante;
Das horas de verso e prosa,
Das páginas marulhantes.

Saudades do meu café,
Da varanda onde me sento,
Do canto das avezinhas
E do cavalgar do tempo...

Saudades até da chuva
E do vento que lá há;
Pois aqui o vento não venta
Como venta o vento lá.

Ah saudades!...

Saudades da minha casa,
Saudades do meu Amor!
Do gosto das acerolas,
Do charme do beija-flor!

RODRIGO DELLA SANTINA

domingo, 22 de janeiro de 2012

Talvez



Talvez eu queira tua presença,
Talvez tua dor me faça bem,
Talvez eu leia no teu rosto
Aquilo que eu ainda não sei.

Talvez eu veja a tua alegria,
Talvez tua solidão eu veja.
Seja o que for não pode ser
Pior do que minha tristeza.

Talvez eu queira, assim, teu beijo,
Talvez, que me dês cabo à vida...
Perdão ― se sou indelicado,
Perdão ― se és para mim bonita.

RODRIGO DELLA SANTINA

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Frio


Acordei cinza.
Dentro de casa
Um ar branco
Paira no teto.

Tiro a pressão
― Pálida.

Sorvo uma sopa
Transparente.

          ...

Sobre o meu corpo
O pelo
Antigo
De fracos
Animais...

Sobre os meus olhos
O mármore
Moldando
Os sonhos
De Miguel...

          *

A boca expele um último insulto

Antes
               da vinda
                                   da noite...

RODRIGO DELLA SANTINA

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sofro ao infinito com a discussão das pedras e da chuva


1.

Sofro ao infinito com a discussão das pedras e da chuva.
Toda a natureza em meu redor se deforma
                                                                 se altera
                                                                 se completa
Todos os animais se justificam na própria existência
                                                                       ― passada ou presente
(e até futura).
A terra, o sol, a lua, as estrelas,
Todas as coisas se conformam no meu pesar
Todos os homens dialogam na minha alma
E o vento
                        [que se imagina pacificador]
Eleva
O fogo
E varre
As cinzas...

2.

Tenho a alma delicada.

3.

(Faz alguns meses eu vi um tigre. Seu corpo se estendia ao infinito. Sua pele era de um laranja fulgurante. Suas listras, diferentes e iguais entre si, pareciam conter algum segredo, linguístico, atemporal. Como o de Pandora).

4.

Nunca me recuperei dessa visão.

5.

Agora estou no meu quarto escrevendo para as traças
Ouvindo a chuva arguir com as pedras uma canção sem data
Como uma partida de xadrez empoeirada.

E estou em xeque de mim mesmo.

RODRIGO DELLA SANTINA

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Verso branco



Eu quase não via o verso dele.

A rima era frágil, a métrica
Insegura.

Mas a sua poesia não carecia de plateia.
Era invisível como a pedra.

RODRIGO DELLA SANTINA

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Sem cessar



Venta lá fora vento sereno
(Eu gosto do vento no meu rosto...).
O silêncio dos grilos o cavalo.

As árvores dançam as acerolas caem.

Aqui dentro um calor abafado
― Todo mundo fala ao mesmo tempo
Todos comem
Todos pulam
Todos gritam


Será que eu vou morrer...?
Ou serei eterno
                                            como a fênix?

RODRIGO DELLA SANTINA

domingo, 4 de dezembro de 2011

A pomba


Por cima do telhado para além do muro voa a pomba.
Quando retorna traz no bico um galho.
Pousa no varal das roupas alcança o interior da árvore.

Repete o movimento ininterruptamente.
Não sente-se cansada: o galho no bico
É a sua mais justa recompensa.

RODRIGO DELLA SANTINA

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os tesouros do mundo



Paráfrase do soneto "Nasce o Sol, e não dura mais que um dia..." de Gregório de Matos

 
O sol nasce garboso e pouco dura;
A luz traz na rabeira a escuridão;
Toda beleza tem ponto final;
Toda alegria tem sua sepultura.

Por que desponta o sol, se não perdura?
Por que és, brilhante luz, tão desigual?
Como se acaba formosura tal?
Como se enterra um bem e não suspira?

Que falte ao sol e a luz tamanho garbo;
Que falte à formosura tal firmeza;
E da alegria faça-se o traslado.

O mundo enfim é desditosa empresa:
Quaisquer tesouros tem por emprestado
Alicerçado apenas na incerteza.

RODRIGO DELLA SANTINA

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O miserável




Eu vejo um miserável.
É um velho. Como a borra do café.
Espera o sino bater, bater nove vezes
E senta à igreja, na escadaria.
Tira do bolso um garfo e enche o estômago de perfumes.


É um velho.

Agora vai descendo a rua.
Balança os braços. Não pensa em nada.
Nem na noite que lhe envolve o corpo.
É um velho. E balança os braços.
Como um títere suspenso.

RODRIGO DELLA SANTINA


Digamos que a vida
foi rigorosa demais
Não encontrava saída
Fechado em conchas
num passado. tantas manchas
esqueceu-se do perdão,
de amigos e do pão


O alimento que perdia
era um passo atrás
a  cada dia, nada lembrava
do amor que no mundo havia
A fome e o abandono
o tornaram um miserável
O desprezo é abominável


Mas eis que virá o dia
Já alimentado e são
verá na miséria a Benção
que a vida dá como lição
Vera no amigo um abrigo
Verá na vida um irmão.


Ninguém permanece assim
para sempre, mesmo demente
sempre há quem busque
a devida solução.




Mirze Souza

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Uma alma



Lina Tâmega era apenas um tremor de alma.
E eu que sou?
Um eco rouco de uma ninfa se amor.

RODRIGO DELLA SANTINA
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