Pintura de Samy Charmine
Do pó, ao pó
O tudo que retorna
A faca que corta
A carne que sangra
Dissoluções em vazios
Em dispersos alvéolos
Sem dolo ou dor
Vespas ali deixaram
Marcas de que foram felizes
Ninhos hoje desabitados
Brancos mármores
Seculares perdas
Nos vazios olhos, frios como a neve
Em alma pálida que se esconde
No passar das horas
Passagem estreita
De um caminho esquecido
Pedras roladas de rio
Jogadas ali a esmo
Continuam suas viagens
Preâmbulo de uma saudade
Enriquecida no desejo
De ser um momento breve
Mares navegados
Mas não como dantes
Reflexos no escuro da noite
Beto Palaio
O pó é princípio e é fim
De todo o ser que nasce, afinal
A natureza, não tem dó, ai de mimDe todo o ser que nasce, afinal
Porque todos têm um fim igual
E assim no vazio dissolvidos
A carne e o sangue animal
Já não vivem, já não soltam gemidos
Só a alma vive por seu mal
Mas sem o corpo a alma não pode
Resistir aos apelos da vida
E por isso já ninguém nos acode
Nem ajuda, pois findou nossa lida
Em dispersos alvéolos de dor
Ficaram marcas de vidas felizes
E as flores são hinos de amor
E dos humanos perfeitas raízes
Brancos mármores, são monumentos
Que marcam vidas que passaram
Mas não reportam os tormentos
Desses seres que tanto choraram
E nessa longa passagem tão estreita
De caminhos da longa viagem
Rola uma pedra, em pó já desfeita
Que do que era, já não mostra a imagem
Preâmbulo de uma justa saudade
Enriquecida por forte desejo
Mostra bem desta vida a verdade
Que há num sincero e num tão simples beijo
E nesse momento tão breve
Com reflexos no escuro da noite
As ondas e sua espuma tão leve
Saem do mar com a força do açoite
Joaquim Valle Cruz
