O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




sábado, 4 de dezembro de 2010

UM ALGO NO PASSADO


                Pintura de Frida Kahlo


Isto aconteceu ontem
Quando desejei encontrar
Algo vindo do anteontem
Que estivera a cavoucar
Acolá do trasanteontem
Algo assim bem guardado

No baú da memória
ou no livro do esquecimento
algo assim que no momento
não quisera ser lembrado
mas que ficou bem resguardado
como um tesouro precioso

Estava oculto no passado
Aquilo não encontrado
Para nunca mais ninguém
Saber o que foi guardado
Nem sequer imaginar
Deste algo nunca exposto

E por ser assim tão escondido
esse contido segredo
jamais por alguém imaginado
talvez nem mesmo tenha existido
mas apenas sido sonhado

Um momento de busca
Por esse algo descomunal
Um apanhado que houvera
De uma inteira primavera
Ser oculta num singular
Ramalhete de rosas

Rosas cor de carmim
ofertadas por algum amor
que parecem ainda exalar
perfume tão singular
de suas pétalas já ressequidas
pelo tempo envelhecidas.





Ianê Mello e Beto Palaio

TIRESIA

Pintura de Magritte


Magma vulcânico em erupção
Lava transformadora
e transformável
Numa dança esplêndida,
pulsante, num crescendo
Bethoven em sinfonia
Tiresia surge em contemplação
serena


Acorda Tiresia. Veja em ti
Cabelos longos e seios fartos
Homem que te dá prazer
Mulher agora revelada
Serpentes do inimaginável
Numa delas a feminilidade


Alma de mulher aprisionada
num corpo de masculinas formas
e nos olhos a tristeza do não ser
Rosa vermelha da noite
que encanta homens viris
com sua masculinidade à mostra,
masculinidade que teimas em ocultar


A cegueira momentânea
Por quebrar regra milenar
Onde jamais seria bastante
Depositar na cópula a honra
Em fecundo exílio no duelo
Revestido em pleno dourado
Surge, de repente, o amor


Dentre as rosas a mais bela
conserva nela uma pureza
em inocente canção que sussurra
Aos olhos atentos descoberta,
por tal mente doentia,
um voyeur casto que por capricho
contenta-se em admirar os dois sexos
que habitam esse travestido corpo
tornando-a sua prisioneira


Duplas nunca espaçadas.
Por você, irmã
Nove partes de delícias
Sem que nada se perca.
Por você, irmão
Uma parte somente
Sem que nada adicione
Ao deslumbramento de ambos

Beto Palaio e Ianê Mello

Tiresia ou Heresia ???
Complexa revolução
No sexo a confusão
...Em sua completa inversão…
Talvez por nossa mania
De não aceitar a fusão
Daquilo que há de mais belo
Em toda e qualquer relação…


Pois se nessa fusão
Há razão
p’ra encontrar a erupção
Do vulcão que nos inflama
E consome em sua chama
Que nos transforma na lava
Resultado da paixão…!!!


É no verso e no reverso
Dessa imagem que nos prende
Que se encontra toda verdade
Que ao pensamento nos vem
E põe em luta a moral
Que é por vezes irreal
E nos causa tanto mal
E sofrimento também ...


Em todo o lado há prazer
Quando há aceitação
E a primeira condição
É o mútuo consentimento
E sendo assim, não há tormento
Nem há recriminação…


E esse prazer tão humano
Pode ser tão soberano
E criativo também
Que à ascese nos conduz
E nos faz chegar à luz
Que enfim dos Céus nos vem


E é nessa sinfonia
Que chega toda a alegria
Do encontro de dois seres
Quando o homem e a mulher
Conseguem no amor superar
A limitação ancestral
Que considera animal
O mais sublime prazer
Que nos pode acontecer


Joaquim Vale Cruz

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

AMIGOS



Alguns amigos são
como o sol:
aquecem-me
mas cumprem um ciclo
próprio e inabalável.

Alguns amigos são
como a chuva:
renovam-se
renovam-me
e vão embora.

Alguns amigos são
como a árvore:
protegem-me
mas são irredutíveis.

Alguns amigos são
como a terra:
geram o que
lhes é plantado.

No teu dia,
ao espelho,
descobrirás
que cada um deles
vive em ti.


(Jane Chiesse)


CONTEMPLAÇÃO



Pintura de Man Ray



Acorda com desejos de perpetuar
A raça e a vontade de ser livre
Notívaga, suas atitudes enluaravam
Mais de si sabia o tépido sereno
Suas luvas no porta-luvas
seu eterno manto sagrado especial
Todo, no perene, ao fiel, porta-malas


Insone em seus ímpetos juvenis
numa estrada de descobertas
novos mundos ao alcance de suas mãos
No peito a coragem e determinação
Ao respirar o pó da estrada
a sensação de ser temperamental
Pé no acelerador e vamos em frente
O futuro é uma bola de cristal reluzente


Atenta, separou as rosas dos espinhos
Nem soube quantos espinhos havia
Uma sensação boa lhe invadiu
Aquela luz imaculada que ardia
Do criar especial acervo de rosas
Totalmente livre de empecilhos


Em seu rosto complacente
de uma pureza angelical
habita uma criatura inquieta
viajante solitária em seus sonhos
e em reluzente luz diáfana
seus olhos brilham como contas
num esperar contínuo de vida


O dia deu uma volta no globo
Pouco a pouco foi amanhecendo
Ela envolvida em tons ruivos
De amor doado ao limite extremo
Bênçãos de gozos que lhe aderem
Faz de si uma deusa ao remanso
Sua pele branca de desejos


Envolvida em doces afãs
ao vislumbrar tão bela paisagem
avista como numa miragem
toda sua vida a passar
como o farfalhar de folhas outonais
que das árvores se desprendem
anunciando uma nova estação.



Beto Palaio e Ianê Mello



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