O Equilíbrio da Vida (TAO)


O excesso de luz cega a vista.


O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demais estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isso, o sábio em sua alma

Determina a medida de cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o Invisível.



(Tao-Te King, Lao-Tsé)




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O LOBO É O HOMEM DO LOBO


Vida esponjosa
manancial úmida
goteja sólida
selvagem natureza.
O lobo engole o homem
sentida angústia
digere aos gritos o que o sofrimento cala;
no vômito, encontro poucas certezas
quem sou diluiu-se no estômago ácido.

O radar avisa:
Limite de velocidade na próxima curva.

-Não posso! Preciso continuar fugindo...
Acabei de atropelar a criança que um dia fui.

O melhor de mim hoje morreu.
Lou Albergaria
in O Cogumelo que Nasce na bosta da Vaca Profana

domingo, 21 de novembro de 2010

PELES ACORDADAS




Sinto você
A invadir meu ser
Para uma lembrança
Do futuro
Onde estamos juntos
Num café
Numa viagem de trem
Pela Escandinávia
Ou mais perto
Em travesseiros
Ao acordarmos.

Como num sonho
o tocar de mãos
a maciez da pele
o calor do toque
Uma viagem a qualquer lugar
num paradisíaco despertar
de emoções, de desejos infindos
em nuvens de algodão flutuamos
num céu cor de anil.

Um beijo de línguas
Francesas e bascas
Faz em nós tic-tac
De relógios absurdos
Toques com vestígios
De um veludo suave
Para que mãos
Escorram como chuva
Em nosso encanto
Adornado de amor.

Em sua presença
morena e cálida
Presença doce, suave
Na França estamos os dois
em cama de cetim e flores
Em nossos corpos
amores, odores... afãs
Olhos nos olhos, amantes
em comunhão de almas e corpo.

O amor em cânticos
De adormecer deuses
Queima sem pressa
Em velas repartidas
nas mãos de anjos
Que nos acordam
Manhãs que anoitecem
Nosso quarto fechado
Por cortinas
Cor de carne.

Afrodite em sua luz
em nosso quarto presente
ilumina nossos sonhos
em noites de amor
em pétalas de rosa carmim
Angélicos seres alados
em harpas angelicais
dedilham sons celestes
Céu e terra
se fundem
no princípio único
do amor.



Beto Palaio e Ianê Mello


Nessa viagem de amor

De dois corpos em evasão
Fosse num trem a carvão
...Ou noutra qualquer viagem
Pela Escandinávia, ou por França
Que sempre deixa lembrança
De algo de novo e suave
Que sem qualquer outro entrave
Nos conduza a uma cama
Ou a doce travesseiro
Que nos leve a sonhar primeiro
Ou a um terno acordar
De corpos entrelaçados
E pelo seu suor colados
Em afagos sem igual
Em que a maciez da pele
Em suas mãos se revele
Flutuando em nuvens brandas
Percorrendo lindas ancas
Num céu azul, cor de anil
Em que as promessas mil
Se mudam em ternos beijos
Exalando tais desejos
Que o beijo francês exalta
E faz subir à ribalta
A nossa tensão já alta
Que toda ela se espraia
Nesses lençóis de cambraia
De cetim, ou entre flores
Em excitantes odores
Que à comunhão nos conduzem
Em que os olhos se embriagam
E se acendem como velas
Fazendo esquecer procelas…
Quando um cântico se entoa
Em coros de anjos tais
Ou harpas celestiais
Que acordam a nossa carne
Quando enfim os corpos se unem
E nessa união se confundem
Na viagem em que o amor
Foi personagem maior


Joaquim Vale Cruz





PALAVRAS RE PATRIADAS


(para Arnaldo Antunes)
Sentenças de carne e osso
A casa, o oficio, a oferenda
Namoro com vogais intensas
A aspirina aspira o aspirador
Todo caderno de poesia tem
Palavras para se disseminar
Ao vento relento catavento.


Dois perdidos, a alma e a matéria
A casa é sua, a nossa casa.
Atire a primeira pedra e
acabou chorare
Aqui chove pingos e razão
dá-se a quem tem
Agora ou nunca,
mal nenhum lavar as mãos
A hora do juízo final se aproxima
Justifique baby ao seu anjo da guarda


A água tem tititi de cobra
Assopra no vento um zástrás
Chuá-chuá no fogo labareda
Spit sal com gosto de sal spit
Tudo gorjeia na minha terra
Sabiá, maria-fumaça, catarro
Salva a paquera o psiu de praia


Judiaria... Larga a lagartixa
mas podeixar que onde você for eu vou
Tem sovaco de cobra e sururu na zona
Lá se vai o sarará correndo ao largo
Deixa de história e de sarro
que com minha cara ninguém troça
E viva, meu amor, que eu to voltando.
Perto da tribo de Petrópolis
O rei marimbondo e Carlinhos
De Jesus. Dançam no ganzá
Dum Faustão prá lá de chato
Inspirado no repetir eterno
Que boi agora tem saco de filó
Bocó capado engasga gato.


Arrigo Barnabé a dar com o pé
Tem furo no sapato do Itamar
Carlinhos, aquele que é brow na cor
Tem sumo de fulô pelo ar
TV, pura cultura brasileira
e vem lá o Chico na saideira
Feijoada completa para todos.



Beto Palaio e Ianê Mello

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A CIRANDA

                                                       Henri Matisse "A Dança"


O universo é o homem
O homem é uma árvore
A árvore é um gnomo
O gnomo é um leopardo
O leopardo é o bosque
O bosque é o universo

A pétala é a flor
A flor é o néctar
O néctar é a abelha
A abelha é o mel
O mel é o casulo
O casulo é o colibri
O colibri é a pétala

O mar é feito de caminhos
Os caminhos são feitos de pó
O pó é composto de diamantes
Os diamantes são feitos de sonhos
Os sonhos são feitos de nuvens
As nuvens são feitas de mar

O céu é feito de ametistas
As ametistas são feitas de amores
Os amores são feitos de constelações
As constelações são feitas de preces
As  preces são feiaos de desejos
Os desejos são feitos de céu


Os enganos são como a fúria
A fúria é como o redemoinho
O redemoinho é como as asas
As asas são como a ascensão
A ascensão é como os saltos
Os saltos são como os enganos

As verdades são como punhais
Os punhais são como a ferida
A ferida é como o sangue
O sangue é como dilúvio
O dilúvio é como o infinito
O infinito é como as verdades


Beto Palaio e Ianê Mello

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

ANJO EM PECADO
























Falta um anjo em minha ceia
Com asas de crepom e prata
Que não tenha quase fome
Ou um pouco de fome apenas
Mas da fome que me renda
A condição de ser devorado
Ao suave apetite deste anjo
Que ao amor é consagrado


Na minha ceia falta um anjo
Um anjo bom e de expressão suave 
Que me venha devagar e acalente
meus mais doces sonhos
Anjo com asas para voar
Anjo de luz que pouse
levemente suas mãos
em meus cabelos de fogo


Faço festas quando elevo-me
Em hora de render homenagens
Para um anjo em tudo esfaimado
Que sussurra notas de empenho
Faz abril se tornar setembro
Floresce meu jardim com rosas
Ao deitar-me em perfumes
Beija-me a boca sem pressa
Em propostas que não escuso


Anjo que exala ardores
de frutas e de flores silvestres
Anjo que vem de longe
nas asas de prata orvalhadas
pelas noites a vagar
Anjo de quimeras tantas
vindo de esferas estelares
para povoar minhas fantasias


Vem do silencio uma prece
Do amor mais terno e viril
Daquela voz que promete
Um oferecer em renúncia
Embates de romper laços
Do cetim de semi-carnes
Ao que fomos destinados
Desde que tempo é tempo
Ao amar sem embaraços


Anjo terreno, de pele morena
Anjo de pele branca de marfim
Dois anjos, unos, indivisíveis
Anjos com asas de crepom e prata
Anjos no amor conjugados
Anjos em humanos disfarçados
Querubins em sonhos tão sonhados
no encontro de almas reunidos



Beto Palaio e Ianê Mello

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